sexta-feira, 3 de abril de 2026

Salamandra (Ribeirão Preto - SP) - 21/03/2026

 

    Eu costumo colocar o logotipo do restaurante como a primeira imagem aqui no blog. Mas eu não achei o logotipo do Salamandra. E a verdade é que nunca fomos em um restaurante em que a marca pessoal de um chef estivesse tão presente, para o bem e para o mal. Por isso a foto do Chef Hugo Gutierrez, retirada do site oficial do restaurante, é perfeita para iniciar esse texto. O Salamandra ficava a apenas quatro quadras do lugar em que estávamos hospedados em Ribeirão Preto. Chegamos lá a pé, e encontramos o restaurante espremidinho entre uma casa e um prédio de apartamentos. 

Salamandra espremida

    Ambiente interno à meia luz, chegando mesmo perto da escuridão. Chris disse que parecia uma taberna, e acho que é uma descrição precisa. Paredes com algumas manchas, diversos quadros dispostos meio aleatoriamente nas paredes, junto às salamandras, que também aparecem penduradas em vários lugares. Quando chegamos havia uma mesa grande, com uns doze lugares, no salão principal, onde havia um pouco mais de luz. Mas parecia que estava reservada. Nos sentamos mais perto da entrada, com luz de boate. 
 
    Já havia uma mesa com quatro pessoas e outra mesa com um casal - nenhum deles ainda comendo. Esperamos o cardápio por uns cinco minutos. Quando ele chegou, ficamos ali tentando decifrar as opções, apertando os olhinhos no breu. Eis que chega alguém falando alto, conversando com o pessoal da mesa de quatro pessoas, indo pra lá e pra cá, acelerado. Era o chef Hugo Gutierrez, que estava em um evento. Sim, é isso mesmo, o chef chegou quando já havia oito pessoas no restaurante. Ele pediu para as duas garçonetes desmembrarem a mesa grande do salão principal, e perguntou se queríamos ir para lá. E lá fomos todos, para mais perto da cozinha - e, principalmente, perto de alguma luz. Ah sim, Chris ficou feliz porque tinha espaço para fumar na parte dos fundos, sem precisar sair do restaurante.

Agora sim, no salão principal, iluminadíssimo

À esquerda, a cozinha, onde chef Hugo faz arte

A Chris saiu pra fumar e o rapaz ficou se divertindo

Alegria de fumante é poder fumar
 
    Existem diversas opções de entrada, várias delas com frutos do mar, além das "patatas bravas" (batatas com molho apimentado), gaspacho e tortillas, tudo bem espanholito. Entre as opções, uma se chamava "Tapas variadas", com a descrição "preparadas artesanalmente pelo chef" (R$ 130,00). Chamamos uma das garçonetes e perguntamos se dava pra saber quais seriam as tapas. Ela disse que era o primeiro dia dela ali, que estava fazendo um free lancer, e foi perguntar pro chef. A cozinha era ali ao lado, e deu para ouvir Hugo dizendo, meio gritando, "não, não dá pra fazer as tapas, pede o camarão, pede as batatas, as tapas não dá". Então veio à nossa mesa a outra garçonete, mais experiente (e que também auxilia na cozinha de vez em quando), e nos disse que o chef estava em um evento e tinha acabado de chegar, e que para as tapas ele precisa de mais tempo. Aí veio o próprio Hugo à nossa mesa e explicou que para as tapas ele precisa deixar tudo pré-preparado, e que não ia dar tempo. 

    É preciso confessar, eu e Chris cogitamos ir embora. A primeira amostra do restaurante, com a baixa luz, a chegada atrasada do chef, a garçonete novata, as tapas que não podia ser servidas, nos deixaram inseguros sobre o restante da noite. Mas prosseguimos. Pensamos em pedir algo com camarão e batatas para o prato principal, então decidimos não ter esses ingredientes na entrada. Escolhemos o "pan com jamón" (pão tomaca com fatias de jamón, R$ 85). Teoricamente seria um pãozinho tipicamente espanhol, mas o que veio foi pão francês mesmo, de padaria. Ele recebe uma pastinha de alho e tomate, com as fatias de jamón por cima. Sei que o chef Hugo faz jamón (tem vídeos dele no YouTube ensinando a receita), mas não sei se esse que comemos era dele. Fato é que, apesar da apresentação meio pobre, o presunto era de ótima qualidade, muito bem temperado, e a pastinha de alho e tomate, apesar de sutil, dava um tchan no sabor. Não foi incrível, mas gostamos.

Não é a mais bela feição, mas tava bom

    Já tínhamos decidido qual seria nosso prato principal. O cardápio é bem variado, trazendo uma página só com especialidades espanholas (paellas diversas, arroz de lula, polvo, etc), outra com alguns pratos autorais criados pelo chef Hugo, e por fim outra com receitas mais diversificadas como camarão à baiana, moqueca e lagosta a Thermidor. No momento em que pedimos a entrada já indicamos também qual seria o nosso prato principal. Pois não é que comemos todo nosso pão com jamón e ficamos ali esperando por um tempo, até que passa o chef Hugo e diz, com seu sotaque barcelonês "eu tô enrolando, deixando vocês curtirem, se quiserem o principal me falem que é rapidinho". Entre incrédulos e entretidos, liberamos o chef para fazer nosso prato principal.

    Nossa escolha foi da seção de pratos autorais: o Camarão Serrano (camarões salteados no alho com funghis variados, batatas e finalizado com jamón serrano, R$ 370, para duas pessoas). Além dos elementos da descrição, vieram também acelga e aspargos. Os ingredientes vem todos em uma travessa, ladeados por arroz branco com ervas, "puxado no alho", como me disse o chef, e fatias de pão (que não saiu nas fotos, mas não era pão francês, era melhor, até falamos que ele poderia ter sido usado na entrada). É uma comida simples, em termos de apresentação e temperos, mas extreamente saborosa. Ingredientes todos no ponto certo, levemente resistentes à mordida, tudo temperado, proporção perfeita para dois. Os pães tem o papel essencial de servir para "chuchar" o molho do fundo da travessa e depois enfiar o pão na boca, um ato que gerou gemidos deste que vos escreve.  

Tem muito sabor nessa travessinha aí

Os pães ainda não tinham vindo, ficaram de fora da foto

    Não existem sobremesas no cardápio do Salamandra. Mas o chef nos serviu duas tacinhas de jerez, o vinho fortificado espanhol, enquanto esperávamos a conta. Ela, a dolorosa, chegou em um papel de uma agenda antiga, escrita à mão, listando as três long necks de Heineken (R$15 cada), um refrigerante em lata (R$10), o pan com jamón e o camarão serrano, tudo por R$ 555,00, já contando os 10%. Pedimos pra garçonete levar para o chef assinar, e ele voltou dizendo que faria ainda melhor, e nos deu uma caneca de cerâmica enorme, escrito "la dolorosa", como souvenir. E tirou uma foto conosco.

Todo um charme vintage na conta

A canecona de "la dolorosa", já em São José dos Campos

Nosso parça Hugo Gutierrez

    A experiência no Salamandra é muito difícil de descrever em palavras. Eu escrevo um diário de viagem em todas as nossas andanças, e talvez o que escrevi sobre o Salamandra, ali no calor da experiência, consiga ilustrar melhor como foi a noite:

    "Chegamos às 20:00 e saímos às 23:00, uma experiência que foi do desconforto pra estranheza, pro maravilhamento, pra alegria, pro desconforto de novo, pra música alta, depois pro silêncio, pra música alta com a caixa de som falhando, pro chef cantando junto, pro chef dançando na cozinha, pro chef gritando "yuhuuu", pro chef chamando a garçonete, brigando com a garçonete, amando a garçonete, indo falar com a Chris enquanto ela fumava, depois sumindo e largando a cozinha, e sempre tomando um copão de sangria. Que loucura! Deve haver restaurante melhor em Ribeirão, mas não existe nenhum restaurante igual em Ribeirão".

    O chef Hugo nos disse que está de mudança, vai entregar o imóvel no fim de abril, por isso as coisas estão um pouco bagunçadas. Diz que vai sair do centro da cidade, onde está há 25 anos, e vai para um outro bairro, chamado Irajá (ou não, porque ele também falou que vai passar um tempo em Jericoacoara e pode ser que não volte). Foi muito difícil dar as notas para o Salamandra, porque o ambiente é feio, mas é incrível, o serviço foi uma merda, mas foi maravilhoso, o custo-benefício é ruim, mas o que é esse tal "benefício", afinal? No fim das contas, é possível que o leitor descarte completamente a possibilidade de visitar o lugar, baseado no texto e nas nossas notas. Mas lembrem-se: as notas são objetivas, enquanto a experiência é sempre subjetiva. Acho que essa vai ser a primeira vez que não responderemos à pergunta sobre se voltaríamos ou não a um restaurante. Nós fomos uma vez ao Salamandra. E foi caótico. E foi inesquecível. E isso basta.

AVALIAÇÕES (Primeira nota da Chris, segunda nota do Fê; ao lado do quesito está o peso dele na média final):

Ambiente(2): 7,5 e 5
Serviço(2): 6 e 5
Entrada(2): 5 e 6,5
Prato principal(3): 8 e 9
Custo-benefício(1): 6 e 6
Média: 6,7 e 6,6

Serviço:
R. São José, 839 - Centro, Ribeirão Preto - São Paulo
Telefone: (16) 99275-7540
Site: https://www.salamandrarestaurante.com.br/
Instagram: @salamandra_ribeirao

sexta-feira, 27 de março de 2026

Cafezando #13: My Cat Café (Ribeirão Preto - SP) - 20/03/2026

 

    "A 1ª Rede de Franquias e Cursos de Cat Cafés do Brasil!". É assim que o My Cat Café se apresenta em seu sítio na internê. Aí você, nobre leitora ou leitor, se pergunta: o que catzo é um cat-café? Mais uma vez recorro ao sítio do My Cat Café: "O conceito de Cat-Cafés surgiu em 1998 em Taiwan, mas foi no Japão que ele ganhou grande popularidade. Na sequência, desembarcou em países como Canadá, Estados Unidos, França e Espanha até chegar no Brasil". Tá, mas qual é o conceito, afinal? Aí recorro a mim mesmo: é um café em que tudo gira em torno dos bichanos, seja na decoração, seja nos nomes das bebidas e comidas no cardápio. Mas tem ainda uma função mais especial: de ser um local para adoção de gatos de rua. Certo, mas como isso funciona? O My Cat Café tem um ambiente fechado, com vários gatos recolhidos da rua (devidamente vacinados e castrados), e você pode adotar um deles (existe uma taxa de R$ 50 por adoção, e esse valor vai direto para a pessoa que doou o gato). Para quem não quer adotar, também existe a opção de entrar no ambiente fechado e brincar com os gatinhos. Mas não é na faixola não, quinze minutos custam dez reais, trinta minutos custam quinze reais, e assim por delante.

A Chris brinca com gatos de graça...

...obviamente me refiro aos oito que ela tem em casa

    Agora que você já sabe como funciona o troço, e já viu como é a fachada do trem, vamos mostrar um pouquinho de como é o ambiente da bagaça:

Gatalharada

Espelho de gato ou gato no espelho?

Lugar de gato macho

Lugar de gato fêmea

Até no toilette tem gato saindo pelo ladrão

    Agora que você já viu como é o ambiente da bagaça, vamos mostrar, com "ibagens", como é o tal reduto dos "gatchinhos":

Chris observa os pretinhos e se lembra de seu Anúbis

Tem até sofá pra gato

Comidas às fartas

Esse aí lambisca as patas do alto da torre

    Cansou de ver foto? Pois tome-lhe mais uma, do lugar em que nos sentamos:

Essa foto foi tirada sem a anuência do modelo, vê-se

       Agora vou escrever um pouquinho, que esse texto tá ficando muito sem-texto.

     Enquanto conceito e ambientação, estamos de acordo que é um lugar bacanudo, né? Hora de falarmos dos comes e bebes, afinal, não se come nem se bebe conceito, já diria a Paola Carosella.

      A Chris começou as tarefas com um Cattuccino Creme de Avelã (R$ 23, cappuccino tradicional com brigadeiro de creme de avelã e granulado) e um Cat-Monsieur (R$ 34 croque-monsieur, sanduíche francês com pão artesanal, queijo muçarela, presunto, molho bechamel e parmesão gratinado). Eu escolhi para beber o Sphynx Lemonade (R$ 15, feito com água sem gás, gelo e essência de pink lemonade - pra quem não pegou a referência, sphynx é aquela raça de gato pelado, lindo que só ele) e para comer o Cat-Madame (R$ 35, igual o monsieur, só que com um ovo por cima).

       Foi uma decepção, uma vez que eu tava pronto pra meter o pau e dizer que não adianta ter conceito e servir porcaria, já tinha o discurso na pontinha da língua, mas não teve jeito: estava tudo muito bom. Bom pra miau. Chris adorou o "cattuccino", se deliciou com a borda - e com a lindeza da apresentação. Eu curti meu sphynx lemonade, refrescante (talvez com água com gás ficasse ainda melhor). E adoramos nossos lanches, dá para perceber a boa qualidade dos ingredientes (tínhamos comido na mesma manhã um misto-quente com um presunto ruim, o contraste ficou evidente) e o cuidado na preparação. Bechamel muito bom. O meu tava melhor que o da Chris, claro, posto que tinha um ovo. Chris lembrou do croque-monsieur da sogra dela, minha mãe, no caso, e comentamos de como faz tempo que ela não faz. Viu, Dona Regina?

O gatinho te olha e te chama de gulosa

O drinque é mais bonito que um sphynx

Um monsieur pra madame e um madame pro monsieur

    Chris estava "sastifeita", mas eu queria adoçar meu palato. Escolhi o Petit Gatô (R$ 29, belo nome, fico feliz quando o próprio estabelecimento faz a piada infame e me poupa do desgaste. Trata-se, claro, do bolinho de chocolate com recheio cremoso, acompanhado de sorvete de baunilha e calda de chocolate meio amargo da casa). Muito gostoso, recheio derreteu lindamente, a calda de chocolate meio amargo estava impossível de boa, fez a Chris comer mais do que lhe era cabido, já que disse que não queria doce, pô, próxima vez pede um pra você, mas vá lá, tudo bem, o amor releva tudo. Acompanhamos de um espresso pra Chris (R$8) e um Cariocat pra mim (R$8, é o carioca, aquele espresso com mais água, mais suave).

É meu, tudo meu, tudo meu (e da Chris)

Derreteu lindamente, não era mentira

    Acabei de ver que o preço da franquia do My Cat Café, para uma loja de rua, é estimado em R$ 325.000,00. Enfiei as mãos no bolso e estou sem essa quantia no momento. Mas olha, acho que cairia muito bem em São José dos Campos, onde moramos, ou aí onde você mora, seja lá onde for. Não faltam gatos, nem gateiros, em cidade nenhuma do Brasil (Chris mesmo mora com oito deles). Enfia as mãos no bolso, vai que tem lá esse pixulé. Nossa experiência no My Cat Café foi daquelas que nos faria voltar mais vezes, caso ele não estivesse em Ribeirão Preto, a exatos 370km de onde moramos, ou em Cascavel (PR), na única outra loja que existe até o momento, a 1002km de nós.Tá na hora de expandir essa gataria. Miau?

    É isso. Em breve a gente volta a cafezar. 

Endereço: R. Galileu Galilei, 1725 - Jardim Canada - Ribeirão Preto - São Paulo
Site (tem todas as informações sobre franquia e sobre como funcionam as adoções): https://www.mycatcafe.com.br/
Instagram: @mycat.cafe