Eu costumo colocar o logotipo do restaurante como a primeira imagem aqui no blog. Mas eu não achei o logotipo do Salamandra. E a verdade é que nunca fomos em um restaurante em que a marca pessoal de um chef estivesse tão presente, para o bem e para o mal. Por isso a foto do Chef Hugo Gutierrez, retirada do site oficial do restaurante, é perfeita para iniciar esse texto. O Salamandra ficava a apenas quatro quadras do lugar em que estávamos hospedados em Ribeirão Preto. Chegamos lá a pé, e encontramos o restaurante espremidinho entre uma casa e um prédio de apartamentos.
| Salamandra espremida |
Ambiente interno à meia luz, chegando mesmo perto da escuridão. Chris disse que parecia uma taberna, e acho que é uma descrição precisa. Paredes com algumas manchas, diversos quadros dispostos meio aleatoriamente nas paredes, junto às salamandras, que também aparecem penduradas em vários lugares. Quando chegamos havia uma mesa grande, com uns doze lugares, no salão principal, onde havia um pouco mais de luz. Mas parecia que estava reservada. Nos sentamos mais perto da entrada, com luz de boate.
Já havia uma mesa com quatro pessoas e outra mesa com um casal - nenhum deles ainda comendo. Esperamos o cardápio por uns cinco minutos. Quando ele chegou, ficamos ali tentando decifrar as opções, apertando os olhinhos no breu. Eis que chega alguém falando alto, conversando com o pessoal da mesa de quatro pessoas, indo pra lá e pra cá, acelerado. Era o chef Hugo Gutierrez, que estava em um evento. Sim, é isso mesmo, o chef chegou quando já havia oito pessoas no restaurante. Ele pediu para as duas garçonetes desmembrarem a mesa grande do salão principal, e perguntou se queríamos ir para lá. E lá fomos todos, para mais perto da cozinha - e, principalmente, perto de alguma luz. Ah sim, Chris ficou feliz porque tinha espaço para fumar na parte dos fundos, sem precisar sair do restaurante.
| Agora sim, no salão principal, iluminadíssimo |
| À esquerda, a cozinha, onde chef Hugo faz arte |
| A Chris saiu pra fumar e o rapaz ficou se divertindo |
Existem diversas opções de entrada, várias delas com frutos do mar, além das "patatas bravas" (batatas com molho apimentado), gaspacho e tortillas, tudo bem espanholito. Entre as opções, uma se chamava "Tapas variadas", com a descrição "preparadas artesanalmente pelo chef" (R$ 130,00). Chamamos uma das garçonetes e perguntamos se dava pra saber quais seriam as tapas. Ela disse que era o primeiro dia dela ali, que estava fazendo um free lancer, e foi perguntar pro chef. A cozinha era ali ao lado, e deu para ouvir Hugo dizendo, meio gritando, "não, não dá pra fazer as tapas, pede o camarão, pede as batatas, as tapas não dá". Então veio à nossa mesa a outra garçonete, mais experiente (e que também auxilia na cozinha de vez em quando), e nos disse que o chef estava em um evento e tinha acabado de chegar, e que para as tapas ele precisa de mais tempo. Aí veio o próprio Hugo à nossa mesa e explicou que para as tapas ele precisa deixar tudo pré-preparado, e que não ia dar tempo.
É preciso confessar, eu e Chris cogitamos ir embora. A primeira amostra do restaurante, com a baixa luz, a chegada atrasada do chef, a garçonete novata, as tapas que não podia ser servidas, nos deixaram inseguros sobre o restante da noite. Mas prosseguimos. Pensamos em pedir algo com camarão e batatas para o prato principal, então decidimos não ter esses ingredientes na entrada. Escolhemos o "pan com jamón" (pão tomaca com fatias de jamón, R$ 85). Teoricamente seria um pãozinho tipicamente espanhol, mas o que veio foi pão francês mesmo, de padaria. Ele recebe uma pastinha de alho e tomate, com as fatias de jamón por cima. Sei que o chef Hugo faz jamón (tem vídeos dele no YouTube ensinando a receita), mas não sei se esse que comemos era dele. Fato é que, apesar da apresentação meio pobre, o presunto era de ótima qualidade, muito bem temperado, e a pastinha de alho e tomate, apesar de sutil, dava um tchan no sabor. Não foi incrível, mas gostamos.
| Não é a mais bela feição, mas tava bom |
Já tínhamos decidido qual seria nosso prato principal. O cardápio é bem variado, trazendo uma página só com especialidades espanholas (paellas diversas, arroz de lula, polvo, etc), outra com alguns pratos autorais criados pelo chef Hugo, e por fim outra com receitas mais diversificadas como camarão à baiana, moqueca e lagosta a Thermidor. No momento em que pedimos a entrada já indicamos também qual seria o nosso prato principal. Pois não é que comemos todo nosso pão com jamón e ficamos ali esperando por um tempo, até que passa o chef Hugo e diz, com seu sotaque barcelonês "eu tô enrolando, deixando vocês curtirem, se quiserem o principal me falem que é rapidinho". Entre incrédulos e entretidos, liberamos o chef para fazer nosso prato principal.
Nossa escolha foi da seção de pratos autorais: o Camarão Serrano (camarões salteados no alho com funghis variados, batatas e finalizado com jamón serrano, R$ 370, para duas pessoas). Além dos elementos da descrição, vieram também acelga e aspargos. Os ingredientes vem todos em uma travessa, ladeados por arroz branco com ervas, "puxado no alho", como me disse o chef, e fatias de pão (que não saiu nas fotos, mas não era pão francês, era melhor, até falamos que ele poderia ter sido usado na entrada). É uma comida simples, em termos de apresentação e temperos, mas extreamente saborosa. Ingredientes todos no ponto certo, levemente resistentes à mordida, tudo temperado, proporção perfeita para dois. Os pães tem o papel essencial de servir para "chuchar" o molho do fundo da travessa e depois enfiar o pão na boca, um ato que gerou gemidos deste que vos escreve.
Nossa escolha foi da seção de pratos autorais: o Camarão Serrano (camarões salteados no alho com funghis variados, batatas e finalizado com jamón serrano, R$ 370, para duas pessoas). Além dos elementos da descrição, vieram também acelga e aspargos. Os ingredientes vem todos em uma travessa, ladeados por arroz branco com ervas, "puxado no alho", como me disse o chef, e fatias de pão (que não saiu nas fotos, mas não era pão francês, era melhor, até falamos que ele poderia ter sido usado na entrada). É uma comida simples, em termos de apresentação e temperos, mas extreamente saborosa. Ingredientes todos no ponto certo, levemente resistentes à mordida, tudo temperado, proporção perfeita para dois. Os pães tem o papel essencial de servir para "chuchar" o molho do fundo da travessa e depois enfiar o pão na boca, um ato que gerou gemidos deste que vos escreve.
| Tem muito sabor nessa travessinha aí |
| Os pães ainda não tinham vindo, ficaram de fora da foto |
Não existem sobremesas no cardápio do Salamandra. Mas o chef nos serviu duas tacinhas de jerez, o vinho fortificado espanhol, enquanto esperávamos a conta. Ela, a dolorosa, chegou em um papel de uma agenda antiga, escrita à mão, listando as três long necks de Heineken (R$15 cada), um refrigerante em lata (R$10), o pan com jamón e o camarão serrano, tudo por R$ 555,00, já contando os 10%. Pedimos pra garçonete levar para o chef assinar, e ele voltou dizendo que faria ainda melhor, e nos deu uma caneca de cerâmica enorme, escrito "la dolorosa", como souvenir. E tirou uma foto conosco.
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| Todo um charme vintage na conta |
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| A canecona de "la dolorosa", já em São José dos Campos |
| Nosso parça Hugo Gutierrez |
A experiência no Salamandra é muito difícil de descrever em palavras. Eu escrevo um diário de viagem em todas as nossas andanças, e talvez o que escrevi sobre o Salamandra, ali no calor da experiência, consiga ilustrar melhor como foi a noite:
"Chegamos às 20:00 e saímos às 23:00, uma experiência que foi do desconforto pra estranheza, pro maravilhamento, pra alegria, pro desconforto de novo, pra música alta, depois pro silêncio, pra música alta com a caixa de som falhando, pro chef cantando junto, pro chef dançando na cozinha, pro chef gritando "yuhuuu", pro chef chamando a garçonete, brigando com a garçonete, amando a garçonete, indo falar com a Chris enquanto ela fumava, depois sumindo e largando a cozinha, e sempre tomando um copão de sangria. Que loucura! Deve haver restaurante melhor em Ribeirão, mas não existe nenhum restaurante igual em Ribeirão".
O chef Hugo nos disse que está de mudança, vai entregar o imóvel no fim de abril, por isso as coisas estão um pouco bagunçadas. Diz que vai sair do centro da cidade, onde está há 25 anos, e vai para um outro bairro, chamado Irajá (ou não, porque ele também falou que vai passar um tempo em Jericoacoara e pode ser que não volte). Foi muito difícil dar as notas para o Salamandra, porque o ambiente é feio, mas é incrível, o serviço foi uma merda, mas foi maravilhoso, o custo-benefício é ruim, mas o que é esse tal "benefício", afinal? No fim das contas, é possível que o leitor descarte completamente a possibilidade de visitar o lugar, baseado no texto e nas nossas notas. Mas lembrem-se: as notas são objetivas, enquanto a experiência é sempre subjetiva. Acho que essa vai ser a primeira vez que não responderemos à pergunta sobre se voltaríamos ou não a um restaurante. Nós fomos uma vez ao Salamandra. E foi caótico. E foi inesquecível. E isso basta.
"Chegamos às 20:00 e saímos às 23:00, uma experiência que foi do desconforto pra estranheza, pro maravilhamento, pra alegria, pro desconforto de novo, pra música alta, depois pro silêncio, pra música alta com a caixa de som falhando, pro chef cantando junto, pro chef dançando na cozinha, pro chef gritando "yuhuuu", pro chef chamando a garçonete, brigando com a garçonete, amando a garçonete, indo falar com a Chris enquanto ela fumava, depois sumindo e largando a cozinha, e sempre tomando um copão de sangria. Que loucura! Deve haver restaurante melhor em Ribeirão, mas não existe nenhum restaurante igual em Ribeirão".
O chef Hugo nos disse que está de mudança, vai entregar o imóvel no fim de abril, por isso as coisas estão um pouco bagunçadas. Diz que vai sair do centro da cidade, onde está há 25 anos, e vai para um outro bairro, chamado Irajá (ou não, porque ele também falou que vai passar um tempo em Jericoacoara e pode ser que não volte). Foi muito difícil dar as notas para o Salamandra, porque o ambiente é feio, mas é incrível, o serviço foi uma merda, mas foi maravilhoso, o custo-benefício é ruim, mas o que é esse tal "benefício", afinal? No fim das contas, é possível que o leitor descarte completamente a possibilidade de visitar o lugar, baseado no texto e nas nossas notas. Mas lembrem-se: as notas são objetivas, enquanto a experiência é sempre subjetiva. Acho que essa vai ser a primeira vez que não responderemos à pergunta sobre se voltaríamos ou não a um restaurante. Nós fomos uma vez ao Salamandra. E foi caótico. E foi inesquecível. E isso basta.
AVALIAÇÕES (Primeira nota da Chris, segunda nota do Fê; ao lado do quesito está o peso dele na média final):
Ambiente(2): 7,5 e 5
Serviço(2): 6 e 5
Entrada(2): 5 e 6,5
Prato principal(3): 8 e 9
Custo-benefício(1): 6 e 6
Média: 6,7 e 6,6
Serviço:
R. São José, 839 - Centro, Ribeirão Preto - São Paulo
Telefone: (16) 99275-7540
Site: https://www.salamandrarestaurante.com.br/
Instagram: @salamandra_ribeirao
Ambiente(2): 7,5 e 5
Serviço(2): 6 e 5
Entrada(2): 5 e 6,5
Prato principal(3): 8 e 9
Custo-benefício(1): 6 e 6
Média: 6,7 e 6,6
Serviço:
R. São José, 839 - Centro, Ribeirão Preto - São Paulo
Telefone: (16) 99275-7540
Site: https://www.salamandrarestaurante.com.br/
Instagram: @salamandra_ribeirao


