segunda-feira, 15 de junho de 2026

O Gato Que Ri (São Paulo - SP) - 31/05/2026

 

    Imagine São Paulo, capital paulista, no fim dos anos 1950. Imagine um pai e uma mãe, saindo de casa no Planalto Paulista, na zona sul, com dois filhos pequenos, uma menina de seis anos e um menino de quatro anos, indo até o centro da cidade, na região da Praça da República, de ônibus, para assistir ao Festival Tom & Jerry no Cine Metro. Imagine esse pai e essa mãe saindo do cinema e indo até um restaurante ali pertinho, no Largo do Arouche, para completar o programa dominical. Esse pai é o meu avô, essa mãe é minha avó, essas crianças são minha mãe e meu tio, e esse restaurante é O Gato Que Ri, ainda resistindo no mesmo lugar, desde 1951. Eu e Chris não assistimos ao Festival Tom & Jerry, até porque o Cine Metro virou igreja evangélica, mas visitamos O Gato Que Ri para termos ao menos um pedaço da experiência vivida por parte de minha família há mais de sessenta anos. 

Chegando na máquina do tempo

    Rumo aos oitenta, O Gato Que Ri ainda atrai bastante gente. Prova disso é que não havia mesa disponível quando chegamos. Tivemos que esperar um tempinho. Não demorou tanto, porque a principal demanda é por mesas grandes, já que o lugar é muito frequentado por famílias. Em casal fica mais fácil arrumar um lugarzinho. São dois corredores compridos, divididos por uma parede vazada por arcos. Mesas próximas umas às outras, decoração com fotos antigas de São Paulo e, claro, muitos gatos. Funcionários que parecem estar ali há muito tempo. Um restaurante tradicional, em todos os sentidos da palavra, um lugar em que a gente entra e se sente em casa, porque já estivemos muitas vezes em lugares parecidos. A sensação é de conforto emocional, no meu caso aumentado pela história familiar.
 
O gato que ri (no cardápio, claro)

A gata que olha pro alto

Um zoom bem vagabundo nos gatos do outro lado do salão

    O cardápio é de clássicos italianos, sem invencionices, dividido em aves, peixes, carnes, risotos e massas, sendo que esta última seção tem algumas dezenas de opções, entre tipos de massas e de molhos. Há também algumas saladas e sopas. Dois pratos são servidos apenas em dias específicos: a rabada, às quintas e domingos, e a feijoada, às quartas e sábados.

    São apenas quatro opções de entrada, todas bem tradicionais. Escolhemos o "Carpaccio tradicional" (com parmesão em lâminas e salsa, ao molho de alcaparras, R$ 56). Sem miséria no parmesão e nas alcaparras, como se pode ver na foto. Molhinho de alcaparras bem gostoso, tanto que a Chris proibiu o garçom de levá-lo embora, e fez uso dele também no prato principal. 

Tocharam uma lata de alcaparra, sem miséria

    Nosso jantar na Casa do Porco tinha sido na noite anterior. Se você leu o texto (aqui), sabe que comemos muito. Por conta disso, Chris queria algo mais leve para esse almoço de domingo. Escolheu o "Filé de trutas grelhado ao molho de ervas" (com arroz de amêndoas e batata sauté, R$ 96). Começando pelo molho de ervas, não dá pra dizer que era um molho exatamente, mas as ervas temperadas e maceradas, por cima do filé. Chris gostou, parecia que tinha sálvia no meio, que ela adora. A truta estava boa, no ponto certo. As batatinhas também estavam corretas. Ela achou o arroz meio sem graça, faltou mais tempero. Acabou usando bastante o molhinho de alcaparras que sobrou da entrada.
 
Olha o molhinho intruso ali do lado

O olho da camiseta tá doido pra comer

    Pouco depois de sentar à mesa, mandei mensagem para minha mãe: "Alguma sugestão de pedido, Dona Regina?". Ela não respondeu de imediato, e fui olhando o cardápio. Já estava certo de pedir o "Polpettone de picanha" quando chegou a resposta: "Lasanha verde bolonhesa com molho branco. Era meu clássico 😋😋". Desnecessário dizer que segui o pedido da matriarca. Pedi a massa de lasanha verde com molho bolonhesa (R$ 81). Todas as lasanhas já vem com camadas de molho bolonhesa e branco, além de bacon, presunto picado e parmesão. A isso adiciona-se o molho de preferência, entre cinco opções. É uma lapada de comida, acho que nem a Regininha de seis anos nem a Regina atual conseguiriam comer tudo. Muito bem temperada, uma lasanha clássica, do jeito que a gente espera (mas é preciso dizer que a lasanha feita pela Dona Regina é melhor!). Comi tudinho, e ao final a Chris mandou mensagem para minha mãe com uma foto do prato vazio, pra provar que eu tinha gostado.
 
Montanha

Pronto pra subir a montanha

Mudou o nome do restaurante: O Não-Gato Que Não-Ri
 
    As sobremesas disponíveis no cardápio são aquelas protocolares (petit gateau, creme de papaia, etc), e a verdade é que nem precisávamos de mais nada, mas cumprimos a função social que esse blog exige. Pedimos o "Tiramissú" (R$ 35), que chegou à mesa muito gelado, com alguns pedaços parecendo sorvete mesmo. Ruim não era, bem achocolatado, mas achamos que faltou mais presença de café. 

Sorvetaço

    Desde a chegada, achamos o serviço bem eficiente. Fomos rapidamente instalados em uma mesa perto da entrada, e, mesmo com o restaurante lotado, os pratos foram servidos com agilidade, no tempo certo, sem que parecesse algo apressado, mas sem demora excessiva (né, Casa do Porco?). Os garçons parecem fazer o serviço de maneira natural, com os pés nas costas, mas ao mesmo tempo sem parecerem mecanizados. Fica apenas uma ressalva em relação ao fato de que o mesmo maitre responsável pela acomodação dos clientes que chegam fica também responsável pelo pequeno empório com vendas de produtos próprios. Desistimos de comprar as massas para viagem, porque ele não conseguia nos dar atenção, atarantado com a galera que chegava para almoçar.

    A visita ao restaurante foi o último ato de um final de semana todo imerso na região da Praça da República, onde convivem a modernidade e o tradicionalismo. O Gato Que Ri certamente entra no lado do tradicionalismo. E aqui enxergo a palavra com um viés positivo. Quem vai ao Gato Que Ri sabe exatamente o que vai encontrar, e isso traz conforto. Não é preciso ficar perguntando ao garçom o que são os itens do cardápio, porque já vimos tudo aquilo milhares de vezes. Nem sempre é o que a gente quer, mas às vezes é o que a gente quer: previsibilidade. O Gato Que Ri entrega isso. Nem é preciso responder se voltaríamos ao lugar, porque a gente sempre volta a lugares como esse. Foi maravilhoso ir com a Chris, que conhece tão bem minha mãe, conhece meu tio, e infelizmente não conheceu meu avô e minha avó. Não deu tempo. Mas eles estavam ali, de alguma maneira. Me considero ateu, mas nem por isso descarto as intangibilidades. Acredito, também, no que não existe. Obrigado, mãe, pela dica. E obrigado, vô e vó, pelos domingos passados e por esse, tão recente.
 
AVALIAÇÕES (Primeira nota da Chris, segunda nota do Fê; ao lado do quesito está o peso dele na média final):

Ambiente(2): 6 e 7
Serviço(2): 8 e 8
Entrada(2): 6 e 6
Prato principal(3): 6 e 7
Sobremesa (2): 4,5 e 5
Custo-benefício(1): 5,5 e 6,5
Média: 6,04 e 6,62

Serviço:
Largo do Arouche, 37/41 - República - São Paulo - SP
Telefone: (11) 3331-0089
Site: https://www.ogatoqueri.com.br/
Instagram: @ogatoquerirestaurante

domingo, 7 de junho de 2026

A Casa do Porco (São Paulo - SP) - 30/05/2026

 

    O objetivo de nossa viagem a São Paulo era assistir, pela primeira vez, a uma ópera no Theatro Municipal. Mas quando vi que nosso apartamento alugado pelo Airbnb, em frente à Praça da República, ficava a pouquíssimos metros do restaurante A Casa do Porco, não deu para resistir a aproveitar o ensejo (seja lá o que for o tal do ensejo) e visitar também este que já pode ser chamado de um jovem clássico paulistano. Todo mundo que é meio antenadinho nesse mundinho gastronômico já ouviu falar do lugar, ou ao menos de seu chef, o afamado Jefferson Rueda.
 
Os afamados chegando

    Nós fizemos reserva com um montão de antecedência, e ficamos em uma mesa na calçada, conforme solicitado - fica mais fácil pra Chris dar suas pitadas, embora não seja permitido fumar na mesa. É bastante recomendado fazer reserva, do contrário será preciso ficar em uma lista de espera, por ordem de chegada (uma hostess fica ali na entrada organizando tudo). Essa parte externa é mais tranquila, com mesas afastadas umas das outras. Já a parte interna é bem animada, com mesas mais próximas e clima de bar (inclusive o nome completo do lugar é "A Casa do Porco Bar"), com decoração bem preenchida - e bem brasileira - e cozinha aberta. 

É o cardápio? Não, é o libreto da ópera! Chique, bem

É o libreto da ópera? Não, é o cardápio! Chique, também

Animada, mesas próximas e clima de bar? Sim!

Cozinha aberta e porco sendo assado? Temos!

Cores, porcos, samambaias? Aos montes!

Foto do afamado Jeffinho, informações diversas? Presentes!

    O cardápio é físico, nada dessa praga de QR Code. Tem formato de folder, com duas abas que se abrem, mas é tudo resolvido em uma página. O curto texto que introduz o conceito da casa começa com a frase "um santuário suíno", o que já define bem a proposta (caso já não estivesse óbvio pelo nome): porco de tudo que é jeito. O menu tem alguns desenhos e frases espirituosas, e as opções traduzem a vocação de bar, com muitos beliscos e entradas para compartilhar. A seção do cardápio denominada "Pra cumê", que traz o que chamaríamos de pratos principais, não passa de meia dúzia de opções, com pratos individuais ficando ali perto da casa dos cem reais. Há também um menu-degustação de oito etapas, chamado D.O.C. (Denominação de Origem Caipira), custando R$ 348,00 por pessoa, mais R$ 269,00 caso se queira harmonizar com vinhos. Mas a experiência completa leva cerca de uma hora e meia, e estávamos $em tempo di$ponível, $abe?

Um pouco do cardápio e um pouco de dedos

    Depois de algum tempo de debate, em que quase escolhemos como entrada a "Salada Croc-corc" (chips de mandioquinha + folhas + camarão + ovo frito + torresmo, R$ 89), acabamos ficando com as "Linguiças na Brasa" (llinguiça de porco da casa + pão de torresmo + farinha de mandioca + saladinha de cenoura e cebola + vinagrete batido, R$ 79). São seis linguiças, e achamos que talvez a proporção pudesse ser um pouco melhor, com menos linguiças, ou com mais acompanhamentos. Mas comemos tudo, linguiça deliciosa, levemente braseada, acompanhamentos bons, com destaque para o vinagrete batido. 

Seis linguicetas, três por cada, é de saciar

    A Chris não é muito fã de torresmo/pancetta, por isso não daria para escolher uma entrada com esses ingredientes. No entanto A Casa do Porco, em sua farta carta de drinks, traz uma seção de "Drinks + Tira-gosto", pra quem quer "juntar a fome com a vontade de beber", como brinca o texto do cardápio. Então pedi o "Bloody Mary + Pancetta Com Goiabada" (R$ 50 com vodka nacional, podendo chegar a R$ 65 com vodka polonesa), pra saciar minha vontade de barriga suína. Vem um pedacinho só, na borda do copo, mas foi suficiente. Ah, e o Bloody Mary estava uma delícia, bem apimentadinho.

Tomate, vodka e pancetta 😋

    E já que entramos no assunto alcoólico, acho que poderia ser dado um pouquinho mais de espaço para as cervejas na carta de bebidas. São apenas seis, sendo que três são da Estrella Galicia (uma delas sem álcool) e três são da Trilha, cervejaria de São Paulo (uma delas feita especialmente para A Casa do Porco). O preço das brejas também é um tanto inflacionado, com a pilsen da casa saindo por R$ 52 na garrafa de 600ml. Ok, é uma bela pilsen, bem lupulada, mas é uma pilsen por cinquenta e duas moedinhas de um real. Pesado. Tomamos duas, lá se foram cento e quatro moedinhas. Pesadíssimo.
 
    O "Porco San Zé" é o prato mais famoso da casa. Vale colocar aqui a descrição do cardápio: "Nasceu no Paraguai. Mas só foi batizado, educado, consagrado e transformado em celebridade em São José do Rio Pardo, pelo chef Jefferson Rueda". Trata-se de um porco cozido lentamente por seis horas, e trazido à mesa com acompanhamentos variados, a depender do dia, "o que veio da horta", como está escrito no menu. O garçom nos explicou que não é possível escolher qual pedaço do porco vem à mesa, se eles fizessem isso todo mundo iria pedir só os cortes-celebridade e os outros ficariam esquecidos. Era certo que pediríamos um desse para um de nossos pratos principais (R$ 125). Restava escolher o outro, e acabamos optando pelo "Porco à milanesa" (lombo de porco à milanesa + burrata + molho de tomate caseiro + salada + talharim na manteiga, R$ 138). Nós até dissemos para o garçom que a Chris preferia carne sem gordura, e ele disse que tentaria trazer o San Zé com algum corte assim. Mas, como não tínhamos certeza se daria certo, resolvemos só decidir o que cada um comeria quando os pratos chegassem.

    Como o corte do San Zé que veio à mesa não era tão desengordurado assim, Chris acabou ficando com o "Porco à milanesa". Acho que ela não tem reclamações a fazer sobre isso, uma vez que só escutei gemidos de prazer vindos do lado dela da mesa. Ela disse que dispensaria o macarrão com manteiga, que o porco em si estava gostoso e macio, mas que o que verdadeiramente a fez gemer foi a junção do molho de tomate com a saladinha e a burrata, que vinham por cima da carne. É uma combinação inusitada essa de salada e burrata em cima de uma milanesa, mas que deu muito certo.  
 
Os gemidos ainda são quase audíveis

    Eu fiquei com o "Porco San Zé", que veio acompanhado de feijão tropeiro, farinha de mandioca, salada de couve e tartar de banana. Começando pelos acompanhamentos, o feijão tropeiro e a farinha de mandioca estavam bons, a salada de couve, com um toquezinho de limão, estava uma delícia, e o tartar de banana era sem dúvida o melhor, com leve acidez, excelente para contrastar com o salgado do prato. Os pedaços de porco pareciam ser da barriga, pela combinação de pele crocante, carne e gordura. Estava muito bom, mas eu não gemi tanto quanto a Chris. Ambos provamos de tudo, ela comeu o meu, eu comi o dela (tenho a impressão de que partes desse texto, fora de contexto, poderiam ser publicadas em um livro erótico), e ambos concluímos que o mais inesquecível de tudo foi mesmo o milanesa com os trem por cima.
 
O San Zé, de São José do Rio Pardo

Amuntadinho no prato

    É preciso dizer que houve um problema de demora entre a entrada e os pratos principais (coisa de uns quarenta minutos), o que fez com que, como disse a Chris, nosso corpo avisasse ao nosso cérebro que estávamos saciados. Ficamos sem fome, resumindo. Ainda assim cumprimos nossa função social de comer nossos pratos principais, e ainda pedir uma sobremesa. O cardápio lista quatro opções, algumas bem interessantes, mas não foi difícil escolher o "Romeu e Julieta" (sorvete de goiaba + espuma de requeijão + goiabada cremosa + toffe, R$ 62). É servido na casquinha de sorvete mesmo, com um arame amparando para que fique de pé. Chris deu só uma experimentada na espuma de requeijão, e não curtiu, ficou comendo só o sorvete mesmo. Eu estranhei à princípio, mas depois achei bem interessante o forte contraste entre o salgado e picante da espuma com o adocicado e frutado do sorvete, da goiabada e do toffe (que a gente só foi encontrar lá no finalzinho da casquinha). 
 
 
E ainda tem umas foinha

    Apesar de a reserva ter sido feita especificamente solicitando uma mesa na calçada, ainda nos foi oferecida a possibilidade de ficar do lado de dentro, no balcão, por conta do friozinho da capital paulista. Achei simpático. Nosso atendimento inicial demorou um pouco, uns cinco minutos para sermos atendidos, e também tivemos a demora citada para a entrega do prato principal. Mas não tivemos problemas para encontrar funcionários disponíveis, eles estavam sempre passando para lá e para cá. Mais importante, demonstram ótimo conhecimento do cardápio e são atenciosos e simpáticos na medida certa.  

    A Casa do Porco foi o fechamento de um dia em que visitamos museus, almoçamos sanduíche de pernil no Bar e Lanches Estadão e assistimos a uma ópera no Theatro Municipal. Um dia que só uma cidade como São Paulo pode proporcionar. É bonito de ver como essa região do centro, geralmente associada a insegurança e medo, está viva e dinâmica, com os moradores da cidade ocupando os espaços que lhes pertencem, e o poder público fazendo minimamente o que lhe cabe. A Casa do Porco, fundada em 2015, tem um pouco a ver com essa revitalização da região, ao atrair olhares, e paladares, para essa parte da cidade. Nossos paladares foram atraídos, e gostamos do que provamos, mas Chris achou que não há motivos para um retorno à Casa do Porco. Já eu acho que dá pra fazer uma nova visita quando estivermos com mais tempo pra saborear aquele menu-degustação, sabe?


AVALIAÇÕES (Primeira nota da Chris, segunda nota do Fê; ao lado do quesito está o peso dele na média final):

Ambiente(2): 7,5 e 8  
Serviço(2): 7 e 7,5
Entrada(2): 6 e 7
Prato principal(3): 7,5 e 7
Sobremesa (2): 5 e 7
Custo-benefício(1): 6 e 6
Média: 6,62 e 7,16
Voltaria? Não e sim

Serviço:
R. Araújo, 124 - República - São Paulo - SP
Telefone: (11) 3258-2578
Site: https://acasadoporco.com.br/
Instagram: @acasadoporcobar

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Salamandra (Ribeirão Preto - SP) - 21/03/2026

 

    Eu costumo colocar o logotipo do restaurante como a primeira imagem aqui no blog. Mas eu não achei o logotipo do Salamandra. E a verdade é que nunca fomos em um restaurante em que a marca pessoal de um chef estivesse tão presente, para o bem e para o mal. Por isso a foto do Chef Hugo Gutierrez, retirada do site oficial do restaurante, é perfeita para iniciar esse texto. O Salamandra ficava a apenas quatro quadras do lugar em que estávamos hospedados em Ribeirão Preto. Chegamos lá a pé, e encontramos o restaurante espremidinho entre uma casa e um prédio de apartamentos. 

Salamandra espremida

    Ambiente interno à meia luz, chegando mesmo perto da escuridão. Chris disse que parecia uma taberna, e acho que é uma descrição precisa. Paredes com algumas manchas, diversos quadros dispostos meio aleatoriamente nas paredes, junto às salamandras, que também aparecem penduradas em vários lugares. Quando chegamos havia uma mesa grande, com uns doze lugares, no salão principal, onde havia um pouco mais de luz. Mas parecia que estava reservada. Nos sentamos mais perto da entrada, com luz de boate. 
 
    Já havia uma mesa com quatro pessoas e outra mesa com um casal - nenhum deles ainda comendo. Esperamos o cardápio por uns cinco minutos. Quando ele chegou, ficamos ali tentando decifrar as opções, apertando os olhinhos no breu. Eis que chega alguém falando alto, conversando com o pessoal da mesa de quatro pessoas, indo pra lá e pra cá, acelerado. Era o chef Hugo Gutierrez, que estava em um evento. Sim, é isso mesmo, o chef chegou quando já havia oito pessoas no restaurante. Ele pediu para as duas garçonetes desmembrarem a mesa grande do salão principal, e perguntou se queríamos ir para lá. E lá fomos todos, para mais perto da cozinha - e, principalmente, perto de alguma luz. Ah sim, Chris ficou feliz porque tinha espaço para fumar na parte dos fundos, sem precisar sair do restaurante.

Agora sim, no salão principal, iluminadíssimo

À esquerda, a cozinha, onde chef Hugo faz arte

A Chris saiu pra fumar e o rapaz ficou se divertindo

Alegria de fumante é poder fumar
 
    Existem diversas opções de entrada, várias delas com frutos do mar, além das "patatas bravas" (batatas com molho apimentado), gaspacho e tortillas, tudo bem espanholito. Entre as opções, uma se chamava "Tapas variadas", com a descrição "preparadas artesanalmente pelo chef" (R$ 130,00). Chamamos uma das garçonetes e perguntamos se dava pra saber quais seriam as tapas. Ela disse que era o primeiro dia dela ali, que estava fazendo um free lancer, e foi perguntar pro chef. A cozinha era ali ao lado, e deu para ouvir Hugo dizendo, meio gritando, "não, não dá pra fazer as tapas, pede o camarão, pede as batatas, as tapas não dá". Então veio à nossa mesa a outra garçonete, mais experiente (e que também auxilia na cozinha de vez em quando), e nos disse que o chef estava em um evento e tinha acabado de chegar, e que para as tapas ele precisa de mais tempo. Aí veio o próprio Hugo à nossa mesa e explicou que para as tapas ele precisa deixar tudo pré-preparado, e que não ia dar tempo. 

    É preciso confessar, eu e Chris cogitamos ir embora. A primeira amostra do restaurante, com a baixa luz, a chegada atrasada do chef, a garçonete novata, as tapas que não podia ser servidas, nos deixaram inseguros sobre o restante da noite. Mas prosseguimos. Pensamos em pedir algo com camarão e batatas para o prato principal, então decidimos não ter esses ingredientes na entrada. Escolhemos o "pan com jamón" (pão tomaca com fatias de jamón, R$ 85). Teoricamente seria um pãozinho tipicamente espanhol, mas o que veio foi pão francês mesmo, de padaria. Ele recebe uma pastinha de alho e tomate, com as fatias de jamón por cima. Sei que o chef Hugo faz jamón (tem vídeos dele no YouTube ensinando a receita), mas não sei se esse que comemos era dele. Fato é que, apesar da apresentação meio pobre, o presunto era de ótima qualidade, muito bem temperado, e a pastinha de alho e tomate, apesar de sutil, dava um tchan no sabor. Não foi incrível, mas gostamos.

Não é a mais bela feição, mas tava bom

    Já tínhamos decidido qual seria nosso prato principal. O cardápio é bem variado, trazendo uma página só com especialidades espanholas (paellas diversas, arroz de lula, polvo, etc), outra com alguns pratos autorais criados pelo chef Hugo, e por fim outra com receitas mais diversificadas como camarão à baiana, moqueca e lagosta a Thermidor. No momento em que pedimos a entrada já indicamos também qual seria o nosso prato principal. Pois não é que comemos todo nosso pão com jamón e ficamos ali esperando por um tempo, até que passa o chef Hugo e diz, com seu sotaque barcelonês "eu tô enrolando, deixando vocês curtirem, se quiserem o principal me falem que é rapidinho". Entre incrédulos e entretidos, liberamos o chef para fazer nosso prato principal.

    Nossa escolha foi da seção de pratos autorais: o Camarão Serrano (camarões salteados no alho com funghis variados, batatas e finalizado com jamón serrano, R$ 370, para duas pessoas). Além dos elementos da descrição, vieram também acelga e aspargos. Os ingredientes vem todos em uma travessa, ladeados por arroz branco com ervas, "puxado no alho", como me disse o chef, e fatias de pão (que não saiu nas fotos, mas não era pão francês, era melhor, até falamos que ele poderia ter sido usado na entrada). É uma comida simples, em termos de apresentação e temperos, mas extreamente saborosa. Ingredientes todos no ponto certo, levemente resistentes à mordida, tudo temperado, proporção perfeita para dois. Os pães tem o papel essencial de servir para "chuchar" o molho do fundo da travessa e depois enfiar o pão na boca, um ato que gerou gemidos deste que vos escreve.  

Tem muito sabor nessa travessinha aí

Os pães ainda não tinham vindo, ficaram de fora da foto

    Não existem sobremesas no cardápio do Salamandra. Mas o chef nos serviu duas tacinhas de jerez, o vinho fortificado espanhol, enquanto esperávamos a conta. Ela, a dolorosa, chegou em um papel de uma agenda antiga, escrita à mão, listando as três long necks de Heineken (R$15 cada), um refrigerante em lata (R$10), o pan com jamón e o camarão serrano, tudo por R$ 555,00, já contando os 10%. Pedimos pra garçonete levar para o chef assinar, e ele voltou dizendo que faria ainda melhor, e nos deu uma caneca de cerâmica enorme, escrito "la dolorosa", como souvenir. E tirou uma foto conosco.

Todo um charme vintage na conta

A canecona de "la dolorosa", já em São José dos Campos

Nosso parça Hugo Gutierrez

    A experiência no Salamandra é muito difícil de descrever em palavras. Eu escrevo um diário de viagem em todas as nossas andanças, e talvez o que escrevi sobre o Salamandra, ali no calor da experiência, consiga ilustrar melhor como foi a noite:

    "Chegamos às 20:00 e saímos às 23:00, uma experiência que foi do desconforto pra estranheza, pro maravilhamento, pra alegria, pro desconforto de novo, pra música alta, depois pro silêncio, pra música alta com a caixa de som falhando, pro chef cantando junto, pro chef dançando na cozinha, pro chef gritando "yuhuuu", pro chef chamando a garçonete, brigando com a garçonete, amando a garçonete, indo falar com a Chris enquanto ela fumava, depois sumindo e largando a cozinha, e sempre tomando um copão de sangria. Que loucura! Deve haver restaurante melhor em Ribeirão, mas não existe nenhum restaurante igual em Ribeirão".

    O chef Hugo nos disse que está de mudança, vai entregar o imóvel no fim de abril, por isso as coisas estão um pouco bagunçadas. Diz que vai sair do centro da cidade, onde está há 25 anos, e vai para um outro bairro, chamado Irajá (ou não, porque ele também falou que vai passar um tempo em Jericoacoara e pode ser que não volte). Foi muito difícil dar as notas para o Salamandra, porque o ambiente é feio, mas é incrível, o serviço foi uma merda, mas foi maravilhoso, o custo-benefício é ruim, mas o que é esse tal "benefício", afinal? No fim das contas, é possível que o leitor descarte completamente a possibilidade de visitar o lugar, baseado no texto e nas nossas notas. Mas lembrem-se: as notas são objetivas, enquanto a experiência é sempre subjetiva. Acho que essa vai ser a primeira vez que não responderemos à pergunta sobre se voltaríamos ou não a um restaurante. Nós fomos uma vez ao Salamandra. E foi caótico. E foi inesquecível. E isso basta.

AVALIAÇÕES (Primeira nota da Chris, segunda nota do Fê; ao lado do quesito está o peso dele na média final):

Ambiente(2): 7,5 e 5
Serviço(2): 6 e 5
Entrada(2): 5 e 6,5
Prato principal(3): 8 e 9
Custo-benefício(1): 6 e 6
Média: 6,7 e 6,6

Serviço:
R. São José, 839 - Centro, Ribeirão Preto - São Paulo
Telefone: (16) 99275-7540
Site: https://www.salamandrarestaurante.com.br/
Instagram: @salamandra_ribeirao

sexta-feira, 27 de março de 2026

Cafezando #13: My Cat Café (Ribeirão Preto - SP) - 20/03/2026

 

    "A 1ª Rede de Franquias e Cursos de Cat Cafés do Brasil!". É assim que o My Cat Café se apresenta em seu sítio na internê. Aí você, nobre leitora ou leitor, se pergunta: o que catzo é um cat-café? Mais uma vez recorro ao sítio do My Cat Café: "O conceito de Cat-Cafés surgiu em 1998 em Taiwan, mas foi no Japão que ele ganhou grande popularidade. Na sequência, desembarcou em países como Canadá, Estados Unidos, França e Espanha até chegar no Brasil". Tá, mas qual é o conceito, afinal? Aí recorro a mim mesmo: é um café em que tudo gira em torno dos bichanos, seja na decoração, seja nos nomes das bebidas e comidas no cardápio. Mas tem ainda uma função mais especial: de ser um local para adoção de gatos de rua. Certo, mas como isso funciona? O My Cat Café tem um ambiente fechado, com vários gatos recolhidos da rua (devidamente vacinados e castrados), e você pode adotar um deles (existe uma taxa de R$ 50 por adoção, e esse valor vai direto para a pessoa que doou o gato). Para quem não quer adotar, também existe a opção de entrar no ambiente fechado e brincar com os gatinhos. Mas não é na faixola não, quinze minutos custam dez reais, trinta minutos custam quinze reais, e assim por delante.

A Chris brinca com gatos de graça...

...obviamente me refiro aos oito que ela tem em casa

    Agora que você já sabe como funciona o troço, e já viu como é a fachada do trem, vamos mostrar um pouquinho de como é o ambiente da bagaça:

Gatalharada

Espelho de gato ou gato no espelho?

Lugar de gato macho

Lugar de gato fêmea

Até no toilette tem gato saindo pelo ladrão

    Agora que você já viu como é o ambiente da bagaça, vamos mostrar, com "ibagens", como é o tal reduto dos "gatchinhos":

Chris observa os pretinhos e se lembra de seu Anúbis

Tem até sofá pra gato

Comidas às fartas

Esse aí lambisca as patas do alto da torre

    Cansou de ver foto? Pois tome-lhe mais uma, do lugar em que nos sentamos:

Essa foto foi tirada sem a anuência do modelo, vê-se

       Agora vou escrever um pouquinho, que esse texto tá ficando muito sem-texto.

     Enquanto conceito e ambientação, estamos de acordo que é um lugar bacanudo, né? Hora de falarmos dos comes e bebes, afinal, não se come nem se bebe conceito, já diria a Paola Carosella.

      A Chris começou as tarefas com um Cattuccino Creme de Avelã (R$ 23, cappuccino tradicional com brigadeiro de creme de avelã e granulado) e um Cat-Monsieur (R$ 34 croque-monsieur, sanduíche francês com pão artesanal, queijo muçarela, presunto, molho bechamel e parmesão gratinado). Eu escolhi para beber o Sphynx Lemonade (R$ 15, feito com água sem gás, gelo e essência de pink lemonade - pra quem não pegou a referência, sphynx é aquela raça de gato pelado, lindo que só ele) e para comer o Cat-Madame (R$ 35, igual o monsieur, só que com um ovo por cima).

       Foi uma decepção, uma vez que eu tava pronto pra meter o pau e dizer que não adianta ter conceito e servir porcaria, já tinha o discurso na pontinha da língua, mas não teve jeito: estava tudo muito bom. Bom pra miau. Chris adorou o "cattuccino", se deliciou com a borda - e com a lindeza da apresentação. Eu curti meu sphynx lemonade, refrescante (talvez com água com gás ficasse ainda melhor). E adoramos nossos lanches, dá para perceber a boa qualidade dos ingredientes (tínhamos comido na mesma manhã um misto-quente com um presunto ruim, o contraste ficou evidente) e o cuidado na preparação. Bechamel muito bom. O meu tava melhor que o da Chris, claro, posto que tinha um ovo. Chris lembrou do croque-monsieur da sogra dela, minha mãe, no caso, e comentamos de como faz tempo que ela não faz. Viu, Dona Regina?

O gatinho te olha e te chama de gulosa

O drinque é mais bonito que um sphynx

Um monsieur pra madame e um madame pro monsieur

    Chris estava "sastifeita", mas eu queria adoçar meu palato. Escolhi o Petit Gatô (R$ 29, belo nome, fico feliz quando o próprio estabelecimento faz a piada infame e me poupa do desgaste. Trata-se, claro, do bolinho de chocolate com recheio cremoso, acompanhado de sorvete de baunilha e calda de chocolate meio amargo da casa). Muito gostoso, recheio derreteu lindamente, a calda de chocolate meio amargo estava impossível de boa, fez a Chris comer mais do que lhe era cabido, já que disse que não queria doce, pô, próxima vez pede um pra você, mas vá lá, tudo bem, o amor releva tudo. Acompanhamos de um espresso pra Chris (R$8) e um Cariocat pra mim (R$8, é o carioca, aquele espresso com mais água, mais suave).

É meu, tudo meu, tudo meu (e da Chris)

Derreteu lindamente, não era mentira

    Acabei de ver que o preço da franquia do My Cat Café, para uma loja de rua, é estimado em R$ 325.000,00. Enfiei as mãos no bolso e estou sem essa quantia no momento. Mas olha, acho que cairia muito bem em São José dos Campos, onde moramos, ou aí onde você mora, seja lá onde for. Não faltam gatos, nem gateiros, em cidade nenhuma do Brasil (Chris mesmo mora com oito deles). Enfia as mãos no bolso, vai que tem lá esse pixulé. Nossa experiência no My Cat Café foi daquelas que nos faria voltar mais vezes, caso ele não estivesse em Ribeirão Preto, a exatos 370km de onde moramos, ou em Cascavel (PR), na única outra loja que existe até o momento, a 1002km de nós.Tá na hora de expandir essa gataria. Miau?

    É isso. Em breve a gente volta a cafezar. 

Endereço: R. Galileu Galilei, 1725 - Jardim Canada - Ribeirão Preto - São Paulo
Site (tem todas as informações sobre franquia e sobre como funcionam as adoções): https://www.mycatcafe.com.br/
Instagram: @mycat.cafe