Imagine São Paulo, capital paulista, no fim dos anos 1950. Imagine um pai e uma mãe, saindo de casa no Planalto Paulista, na zona sul, com dois filhos pequenos, uma menina de seis anos e um menino de quatro anos, indo até o centro da cidade, na região da Praça da República, de ônibus, para assistir ao Festival Tom & Jerry no Cine Metro. Imagine esse pai e essa mãe saindo do cinema e indo até um restaurante ali pertinho, no Largo do Arouche, para completar o programa dominical. Esse pai é o meu avô, essa mãe é minha avó, essas crianças são minha mãe e meu tio, e esse restaurante é O Gato Que Ri, ainda resistindo no mesmo lugar, desde 1951. Eu e Chris não assistimos ao Festival Tom & Jerry, até porque o Cine Metro virou igreja evangélica, mas visitamos O Gato Que Ri para termos ao menos um pedaço da experiência vivida por parte de minha família há mais de sessenta anos.
| Chegando na máquina do tempo |
Rumo aos oitenta, O Gato Que Ri ainda atrai bastante gente. Prova disso é que não havia mesa disponível quando chegamos. Tivemos que esperar um tempinho. Não demorou tanto, porque a principal demanda é por mesas grandes, já que o lugar é muito frequentado por famílias. Em casal fica mais fácil arrumar um lugarzinho. São dois corredores compridos, divididos por uma parede vazada por arcos. Mesas próximas umas às outras, decoração com fotos antigas de São Paulo e, claro, muitos gatos. Funcionários que parecem estar ali há muito tempo. Um restaurante tradicional, em todos os sentidos da palavra, um lugar em que a gente entra e se sente em casa, porque já estivemos muitas vezes em lugares parecidos. A sensação é de conforto emocional, no meu caso aumentado pela história familiar.
![]() |
| O gato que ri (no cardápio, claro) |
| A gata que olha pro alto |
| Um zoom bem vagabundo nos gatos do outro lado do salão |
O cardápio é de clássicos italianos, sem invencionices, dividido em aves, peixes, carnes, risotos e massas, sendo que esta última seção tem algumas dezenas de opções, entre tipos de massas e de molhos. Há também algumas saladas e sopas. Dois pratos são servidos apenas em dias específicos: a rabada, às quintas e domingos, e a feijoada, às quartas e sábados.
São apenas quatro opções de entrada, todas bem tradicionais. Escolhemos o "Carpaccio tradicional" (com parmesão em lâminas e salsa, ao molho de alcaparras, R$ 56). Sem miséria no parmesão e nas alcaparras, como se pode ver na foto. Molhinho de alcaparras bem gostoso, tanto que a Chris proibiu o garçom de levá-lo embora, e fez uso dele também no prato principal.
São apenas quatro opções de entrada, todas bem tradicionais. Escolhemos o "Carpaccio tradicional" (com parmesão em lâminas e salsa, ao molho de alcaparras, R$ 56). Sem miséria no parmesão e nas alcaparras, como se pode ver na foto. Molhinho de alcaparras bem gostoso, tanto que a Chris proibiu o garçom de levá-lo embora, e fez uso dele também no prato principal.
| Tocharam uma lata de alcaparra, sem miséria |
Nosso jantar na Casa do Porco tinha sido na noite anterior. Se você leu o texto (aqui), sabe que comemos muito. Por conta disso, Chris queria algo mais leve para esse almoço de domingo. Escolheu o "Filé de trutas grelhado ao molho de ervas" (com arroz de amêndoas e batata sauté, R$ 96). Começando pelo molho de ervas, não dá pra dizer que era um molho exatamente, mas as ervas temperadas e maceradas, por cima do filé. Chris gostou, parecia que tinha sálvia no meio, que ela adora. A truta estava boa, no ponto certo. As batatinhas também estavam corretas. Ela achou o arroz meio sem graça, faltou mais tempero. Acabou usando bastante o molhinho de alcaparras que sobrou da entrada.
Pouco depois de sentar à mesa, mandei mensagem para minha mãe: "Alguma sugestão de pedido, Dona Regina?". Ela não respondeu de imediato, e fui olhando o cardápio. Já estava certo de pedir o "Polpettone de picanha" quando chegou a resposta: "Lasanha verde bolonhesa com molho branco. Era meu clássico 😋😋". Desnecessário dizer que segui o pedido da matriarca. Pedi a massa de lasanha verde com molho bolonhesa (R$ 81). Todas as lasanhas já vem com camadas de molho bolonhesa e branco, além de bacon, presunto picado e parmesão. A isso adiciona-se o molho de preferência, entre cinco opções. É uma lapada de comida, acho que nem a Regininha de seis anos nem a Regina atual conseguiriam comer tudo. Muito bem temperada, uma lasanha clássica, do jeito que a gente espera (mas é preciso dizer que a lasanha feita pela Dona Regina é melhor!). Comi tudinho, e ao final a Chris mandou mensagem para minha mãe com uma foto do prato vazio, pra provar que eu tinha gostado.
As sobremesas disponíveis no cardápio são aquelas protocolares (petit gateau, creme de papaia, etc), e a verdade é que nem precisávamos de mais nada, mas cumprimos a função social que esse blog exige. Pedimos o "Tiramissú" (R$ 35), que chegou à mesa muito gelado, com alguns pedaços parecendo sorvete mesmo. Ruim não era, bem achocolatado, mas achamos que faltou mais presença de café.
Desde a chegada, achamos o serviço bem eficiente. Fomos rapidamente instalados em uma mesa perto da entrada, e, mesmo com o restaurante lotado, os pratos foram servidos com agilidade, no tempo certo, sem que parecesse algo apressado, mas sem demora excessiva (né, Casa do Porco?). Os garçons parecem fazer o serviço de maneira natural, com os pés nas costas, mas ao mesmo tempo sem parecerem mecanizados. Fica apenas uma ressalva em relação ao fato de que o mesmo maitre responsável pela acomodação dos clientes que chegam fica também responsável pelo pequeno empório com vendas de produtos próprios. Desistimos de comprar as massas para viagem, porque ele não conseguia nos dar atenção, atarantado com a galera que chegava para almoçar.
A visita ao restaurante foi o último ato de um final de semana todo imerso na região da Praça da República, onde convivem a modernidade e o tradicionalismo. O Gato Que Ri certamente entra no lado do tradicionalismo. E aqui enxergo a palavra com um viés positivo. Quem vai ao Gato Que Ri sabe exatamente o que vai encontrar, e isso traz conforto. Não é preciso ficar perguntando ao garçom o que são os itens do cardápio, porque já vimos tudo aquilo milhares de vezes. Nem sempre é o que a gente quer, mas às vezes é o que a gente quer: previsibilidade. O Gato Que Ri entrega isso. Nem é preciso responder se voltaríamos ao lugar, porque a gente sempre volta a lugares como esse. Foi maravilhoso ir com a Chris, que conhece tão bem minha mãe, conhece meu tio, e infelizmente não conheceu meu avô e minha avó. Não deu tempo. Mas eles estavam ali, de alguma maneira. Me considero ateu, mas nem por isso descarto as intangibilidades. Acredito, também, no que não existe. Obrigado, mãe, pela dica. E obrigado, vô e vó, pelos domingos passados e por esse, tão recente.
A visita ao restaurante foi o último ato de um final de semana todo imerso na região da Praça da República, onde convivem a modernidade e o tradicionalismo. O Gato Que Ri certamente entra no lado do tradicionalismo. E aqui enxergo a palavra com um viés positivo. Quem vai ao Gato Que Ri sabe exatamente o que vai encontrar, e isso traz conforto. Não é preciso ficar perguntando ao garçom o que são os itens do cardápio, porque já vimos tudo aquilo milhares de vezes. Nem sempre é o que a gente quer, mas às vezes é o que a gente quer: previsibilidade. O Gato Que Ri entrega isso. Nem é preciso responder se voltaríamos ao lugar, porque a gente sempre volta a lugares como esse. Foi maravilhoso ir com a Chris, que conhece tão bem minha mãe, conhece meu tio, e infelizmente não conheceu meu avô e minha avó. Não deu tempo. Mas eles estavam ali, de alguma maneira. Me considero ateu, mas nem por isso descarto as intangibilidades. Acredito, também, no que não existe. Obrigado, mãe, pela dica. E obrigado, vô e vó, pelos domingos passados e por esse, tão recente.
AVALIAÇÕES (Primeira nota da Chris, segunda nota do Fê; ao lado do quesito está o peso dele na média final):
Ambiente(2): 6 e 7
Serviço(2): 8 e 8
Entrada(2): 6 e 6
Prato principal(3): 6 e 7
Sobremesa (2): 4,5 e 5
Custo-benefício(1): 5,5 e 6,5
Média: 6,04 e 6,62
Serviço:
Largo do Arouche, 37/41 - República - São Paulo - SP
Telefone: (11) 3331-0089
Site: https://www.ogatoqueri.com.br/
Instagram: @ogatoquerirestaurante
Ambiente(2): 6 e 7
Serviço(2): 8 e 8
Entrada(2): 6 e 6
Prato principal(3): 6 e 7
Sobremesa (2): 4,5 e 5
Custo-benefício(1): 5,5 e 6,5
Média: 6,04 e 6,62
Serviço:
Largo do Arouche, 37/41 - República - São Paulo - SP
Telefone: (11) 3331-0089
Site: https://www.ogatoqueri.com.br/
Instagram: @ogatoquerirestaurante

%20-%20S%C3%A3o%20Paulo%20-%20O%20Gato%20Que%20Ri.jpg)
%20-%20S%C3%A3o%20Paulo%20-%20O%20Gato%20Que%20Ri.jpg)