segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Laura e Francesco (Valinhos - SP) - 24/07/2026

 

    Nesses mais de dez anos de blog, já perdi a conta de quantas vezes citei a Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança como sendo um fator determinante na hora de escolher um restaurante para conhecer nas cidades que visitamos. Com apenas duas noites em Valinhos, mais uma vez esse quesito foi decisivo em nossa escolha. Claro que o fato de o Laura e Francesco ser reconhecido como um dos melhores restaurantes italianos do interior de São Paulo também ajudou bastante.

Chegando na casinha italiana

    Chegar ao Laura e Francesco é como chegar à casa de alguém, como se pode ver na foto acima. E de fato é mais ou menos isso, já que o restaurante traz os nomes de mãe e filho, responsáveis também pela elaboração dos pratos e pela cozinha do lugar. Na chegada já vimos que havia duas mesas no que seria o quintal da casa. À direita fica a cozinha, e subindo uma escada fica o salão principal, com uma grande janela envidraçada. Mas acabamos optando por ficar no quintalzinho mesmo. Mais agradável, mais aberto, mais fresco - e mais fácil pra Chris dar umas pitadas na calçada quando lhe aprouvesse. Tanto em cima quanto embaixo, muitos Pratos da Boa Lembrança de edições passadas nas paredes (acho que mais do que eu tenho em casa!). Nas caixas de som, música italiana, contribuindo ainda mais com a imersão na terra da bota.
 
O pernóstico que mandou um "lhe aprouvesse" no texto

"Meu Deus, mais um Prato da Boa Lembrança, não chega não?"
 
Detalhezinho bonitinho

Pratos, pratos e mais pratos

    Antes mesmo que pudéssemos escolher uma entrada, chegaram à mesa dois pratinhos, cada um com uma trouxinha recheada com caponata de berinjela e mais dois pedacinhos de massa fina. Questionamos o que era, e a garçonete nos disse que era um couverzinho da casa. O pobi tem medo de parecer pobi, aí não perguntamos se era cobrado ou não. Comemos, e era bom, caponata bem temperadinha, trouxinha e massas muito crocantes. Veio cobrado, mas ca-calma, como diria o Silvio Santos, apenas um centavo cada item, só pra lançar na fatura, sabe? 

Disse o trouxinha

    O cardápio é físico - muitas glórias, vivas e aleluias a isso - mas é um pouco confuso. Começa com "Sugestões fora do menu", que traz quatro opções de massas e dois doces. Mas uai, não estão no menu? Depois vem os antepastos, uma página para massas e outra para massas artesanais (não sei bem o que as distingue, já que, pelo que li, todas as massas são feitas por eles), então vem os risotos (mas no meio dos risotos tem algumas outras massas), e finalmente as carnes (cinco opções), os peixes (duas opções) e os doces.

    Depois dos couverzinhos, escolhemos como entrada uma "Piadina Margherita" (massa aberta com molho de tomate, tomate-cereja, muçarela, manjericão e orégano, R$ 50,50). A descrição perfeita de uma pizza margherita, e era quase isso mesmo, mas a piadina é uma massa mais fina, com processo de fabricação um pouco diferente da massa de pizza tradicional. Algo que já notamos é o cuidado da casa com a escolha dos ingredientes, o queijo era muito bom. Mas poderia ter vindo um cadinho a mais de manjericão.

Né, só uns pixulé de manjerica, podia vir mais

    A garçonete ia, vinha, e nada da Chris escolher o prato principal dela. Ficou em dúvida até o último momento. Compreensível, já que o prato que ela estava com vontade parecia um pouco fora da caixa, e ela já se deu mal com escolhas imprudentes. Mas foi corajosa e escolheu o "Risoto Laura e Francesco" (arroz arbóreo, parmesão, manteiga, camarão, abobrinha e maçã verde, R$ 109,50). A hesitação se mostrou infundada, porque ela gostou muito do prato. Ponto do arroz perfeito, contraste muito interessante entre o salgado do queijo e o levemente adocicado e ligeiramente cítrico da maçã verde, com as abobrinhas, cortadas muito pequenamente, trazendo texturas, além de, claro, os camarões, queridinhos da Chris. Ela tava crente que seria enjoativo, mas não foi, comeu até o final. A única pequena ressalva é que ela gostaria de mais pedaços de maçã no meio do arroz.

Além de ser um xuxuzinho na aparência

    Para receber de presente o Prato da Boa Lembrança é preciso pedir a receita correspondente. Como era uma receita que envolvia a presença de polvo e lula, bichinhos que a Chris não gosta de ingerir, sobrou para mim o "Pasticcio di Mare" (lassanha de frutos do mar com massa artesanal fresca, polvo, camarão, linguado, lula, molho bechamel e sugo, R$ 169). Já estamos acostumados com essa inflação no preço do Prato da Boa Lembrança, afinal, alguém tem que pagar o prato, né? A Chris achou que eu tava sendo chato, mas não curti muito a apresentação não. De sabor, é exatamente o que alguém espera de um prato com as palavras "di mare" no nome: muito sabor de mar. Os frutos do mar chegam no recheio cortados muito finamente, irreconhecíveis na aparência, embora seja possível reconhecê-los individualmente no sabor. A massa da casa é muito final e leve, e eu cheguei ao final sem ficar empanzinado.

Além de não ser um xuxuzinho na aparência

    Entre as sobremesas tínhamos ali vários classicões italianos à disposição, e optamos pela "Pannacotta al Fruti di Bosco" (tradicional sobremesa italiana feita com creme de leite fresco e baunilha, servida com calda de frutas vermelhas, R$ 39). Já comemos "pannacotta" algumas vezes, e acho que essa foi a melhor de todas. A textura tava muito boa, mole, mas não molenga (se é que me entendem), e a caldinha muito equilibrada, sem acidez exagerada, combinando muito bem com a "pannacotta". Comer algo simples e bem executado é bem melhor do que comer algo complexo e mal feito.

Tem até os frisos da forminha, olha que tetéia

    Quando nos sentamos na parte de baixo, e não no salão principal, imaginamos que poderíamos ter problemas com a (não) presença de funcionários ali embaixo. Mas foi tranquilo nesse quesito. Tivemos algumas pequenas confusões, tipo vinho que veio errado, azeite que a Chris pediu e não veio, demora para retirar os pratos sujos e demora para entrega do prato principal. Mas nada de muito grave, ou que tenha atrapalhado a experiência.

    Antes de escrever o texto sobre o restaurante, sempre gosto de dar mais uma pesquisada sobre a história da casa. No caso do Laura e Francesco, eu já sabia que o nome fazia referência a Laura e Francesco Bonaiuti, mãe e filho, donos e chefs de cozinha do lugar. Mas eu não sabia de uma informação que acabou de me pegar de surpresa: Francesco Bonaiuti faleceu em 2023. Imagine realizar o sonho de montar um restaurante com seu filho, focado em comida italiana, mais especificamente da região de Bolonha, de onde vem sua família. Imagine a alegria de ver esse restaurante alcançar reconhecimento pela qualidade da cozinha. Imagine a tristeza de perder o filho aos 52 anos. Imagine a força para prosseguir com o restaurante após essa tragédia. Tenho a impressão de que cada prato que sai da cozinha do Laura e Francesco depois disso é um pequeno milagre da resiliência humana que os visitantes tem a oportunidade de testemunhar. Tanto eu quanto a Chris concordamos que voltaríamos ao Laura e Francesco para ter esse privilégio novamente.  

AVALIAÇÕES (Primeira nota da Chris, segunda nota do Fê; ao lado do quesito está o peso dele na média final):

Ambiente(2): 7 e 7
Serviço(2): 6 e 6,5
Entrada(2): 6 e 7
Prato principal(3): 9 e 7
Sobremesa (2): 9 e 8
Custo-benefício(1): 8 e 7
Média: 7,58 e 7,08
Voltaria? Sim e sim

Serviço:
R. Martinho Leardine, 326 - Chácaras Silvânia  - Valinhos - São Paulo
Telefone: (19) 99233-7695
Site: https://www.ristorantelauraefrancesco.com.br/
Instagram: @lauraefran