segunda-feira, 15 de junho de 2026

O Gato Que Ri (São Paulo - SP) - 31/05/2026

 

    Imagine São Paulo, capital paulista, no fim dos anos 1950. Imagine um pai e uma mãe, saindo de casa no Planalto Paulista, na zona sul, com dois filhos pequenos, uma menina de seis anos e um menino de quatro anos, indo até o centro da cidade, na região da Praça da República, de ônibus, para assistir ao Festival Tom & Jerry no Cine Metro. Imagine esse pai e essa mãe saindo do cinema e indo até um restaurante ali pertinho, no Largo do Arouche, para completar o programa dominical. Esse pai é o meu avô, essa mãe é minha avó, essas crianças são minha mãe e meu tio, e esse restaurante é O Gato Que Ri, ainda resistindo no mesmo lugar, desde 1951. Eu e Chris não assistimos ao Festival Tom & Jerry, até porque o Cine Metro virou igreja evangélica, mas visitamos O Gato Que Ri para termos ao menos um pedaço da experiência vivida por parte de minha família há mais de sessenta anos. 

Chegando na máquina do tempo

    Rumo aos oitenta, O Gato Que Ri ainda atrai bastante gente. Prova disso é que não havia mesa disponível quando chegamos. Tivemos que esperar um tempinho. Não demorou tanto, porque a principal demanda é por mesas grandes, já que o lugar é muito frequentado por famílias. Em casal fica mais fácil arrumar um lugarzinho. São dois corredores compridos, divididos por uma parede vazada por arcos. Mesas próximas umas às outras, decoração com fotos antigas de São Paulo e, claro, muitos gatos. Funcionários que parecem estar ali há muito tempo. Um restaurante tradicional, em todos os sentidos da palavra, um lugar em que a gente entra e se sente em casa, porque já estivemos muitas vezes em lugares parecidos. A sensação é de conforto emocional, no meu caso aumentado pela história familiar.
 
O gato que ri (no cardápio, claro)

A gata que olha pro alto

Um zoom bem vagabundo nos gatos do outro lado do salão

    O cardápio é de clássicos italianos, sem invencionices, dividido em aves, peixes, carnes, risotos e massas, sendo que esta última seção tem algumas dezenas de opções, entre tipos de massas e de molhos. Há também algumas saladas e sopas. Dois pratos são servidos apenas em dias específicos: a rabada, às quintas e domingos, e a feijoada, às quartas e sábados.

    São apenas quatro opções de entrada, todas bem tradicionais. Escolhemos o "Carpaccio tradicional" (com parmesão em lâminas e salsa, ao molho de alcaparras, R$ 56). Sem miséria no parmesão e nas alcaparras, como se pode ver na foto. Molhinho de alcaparras bem gostoso, tanto que a Chris proibiu o garçom de levá-lo embora, e fez uso dele também no prato principal. 

Tocharam uma lata de alcaparra, sem miséria

    Nosso jantar na Casa do Porco tinha sido na noite anterior. Se você leu o texto (aqui), sabe que comemos muito. Por conta disso, Chris queria algo mais leve para esse almoço de domingo. Escolheu o "Filé de trutas grelhado ao molho de ervas" (com arroz de amêndoas e batata sauté, R$ 96). Começando pelo molho de ervas, não dá pra dizer que era um molho exatamente, mas as ervas temperadas e maceradas, por cima do filé. Chris gostou, parecia que tinha sálvia no meio, que ela adora. A truta estava boa, no ponto certo. As batatinhas também estavam corretas. Ela achou o arroz meio sem graça, faltou mais tempero. Acabou usando bastante o molhinho de alcaparras que sobrou da entrada.
 
Olha o molhinho intruso ali do lado

O olho da camiseta tá doido pra comer

    Pouco depois de sentar à mesa, mandei mensagem para minha mãe: "Alguma sugestão de pedido, Dona Regina?". Ela não respondeu de imediato, e fui olhando o cardápio. Já estava certo de pedir o "Polpettone de picanha" quando chegou a resposta: "Lasanha verde bolonhesa com molho branco. Era meu clássico 😋😋". Desnecessário dizer que segui o pedido da matriarca. Pedi a massa de lasanha verde com molho bolonhesa (R$ 81). Todas as lasanhas já vem com camadas de molho bolonhesa e branco, além de bacon, presunto picado e parmesão. A isso adiciona-se o molho de preferência, entre cinco opções. É uma lapada de comida, acho que nem a Regininha de seis anos nem a Regina atual conseguiriam comer tudo. Muito bem temperada, uma lasanha clássica, do jeito que a gente espera (mas é preciso dizer que a lasanha feita pela Dona Regina é melhor!). Comi tudinho, e ao final a Chris mandou mensagem para minha mãe com uma foto do prato vazio, pra provar que eu tinha gostado.
 
Montanha

Pronto pra subir a montanha

Mudou o nome do restaurante: O Não-Gato Que Não-Ri
 
    As sobremesas disponíveis no cardápio são aquelas protocolares (petit gateau, creme de papaia, etc), e a verdade é que nem precisávamos de mais nada, mas cumprimos a função social que esse blog exige. Pedimos o "Tiramissú" (R$ 35), que chegou à mesa muito gelado, com alguns pedaços parecendo sorvete mesmo. Ruim não era, bem achocolatado, mas achamos que faltou mais presença de café. 

Sorvetaço

    Desde a chegada, achamos o serviço bem eficiente. Fomos rapidamente instalados em uma mesa perto da entrada, e, mesmo com o restaurante lotado, os pratos foram servidos com agilidade, no tempo certo, sem que parecesse algo apressado, mas sem demora excessiva (né, Casa do Porco?). Os garçons parecem fazer o serviço de maneira natural, com os pés nas costas, mas ao mesmo tempo sem parecerem mecanizados. Fica apenas uma ressalva em relação ao fato de que o mesmo maitre responsável pela acomodação dos clientes que chegam fica também responsável pelo pequeno empório com vendas de produtos próprios. Desistimos de comprar as massas para viagem, porque ele não conseguia nos dar atenção, atarantado com a galera que chegava para almoçar.

    A visita ao restaurante foi o último ato de um final de semana todo imerso na região da Praça da República, onde convivem a modernidade e o tradicionalismo. O Gato Que Ri certamente entra no lado do tradicionalismo. E aqui enxergo a palavra com um viés positivo. Quem vai ao Gato Que Ri sabe exatamente o que vai encontrar, e isso traz conforto. Não é preciso ficar perguntando ao garçom o que são os itens do cardápio, porque já vimos tudo aquilo milhares de vezes. Nem sempre é o que a gente quer, mas às vezes é o que a gente quer: previsibilidade. O Gato Que Ri entrega isso. Nem é preciso responder se voltaríamos ao lugar, porque a gente sempre volta a lugares como esse. Foi maravilhoso ir com a Chris, que conhece tão bem minha mãe, conhece meu tio, e infelizmente não conheceu meu avô e minha avó. Não deu tempo. Mas eles estavam ali, de alguma maneira. Me considero ateu, mas nem por isso descarto as intangibilidades. Acredito, também, no que não existe. Obrigado, mãe, pela dica. E obrigado, vô e vó, pelos domingos passados e por esse, tão recente.
 
AVALIAÇÕES (Primeira nota da Chris, segunda nota do Fê; ao lado do quesito está o peso dele na média final):

Ambiente(2): 6 e 7
Serviço(2): 8 e 8
Entrada(2): 6 e 6
Prato principal(3): 6 e 7
Sobremesa (2): 4,5 e 5
Custo-benefício(1): 5,5 e 6,5
Média: 6,04 e 6,62

Serviço:
Largo do Arouche, 37/41 - República - São Paulo - SP
Telefone: (11) 3331-0089
Site: https://www.ogatoqueri.com.br/
Instagram: @ogatoquerirestaurante

domingo, 7 de junho de 2026

A Casa do Porco (São Paulo - SP) - 30/05/2026

 

    O objetivo de nossa viagem a São Paulo era assistir, pela primeira vez, a uma ópera no Theatro Municipal. Mas quando vi que nosso apartamento alugado pelo Airbnb, em frente à Praça da República, ficava a pouquíssimos metros do restaurante A Casa do Porco, não deu para resistir a aproveitar o ensejo (seja lá o que for o tal do ensejo) e visitar também este que já pode ser chamado de um jovem clássico paulistano. Todo mundo que é meio antenadinho nesse mundinho gastronômico já ouviu falar do lugar, ou ao menos de seu chef, o afamado Jefferson Rueda.
 
Os afamados chegando

    Nós fizemos reserva com um montão de antecedência, e ficamos em uma mesa na calçada, conforme solicitado - fica mais fácil pra Chris dar suas pitadas, embora não seja permitido fumar na mesa. É bastante recomendado fazer reserva, do contrário será preciso ficar em uma lista de espera, por ordem de chegada (uma hostess fica ali na entrada organizando tudo). Essa parte externa é mais tranquila, com mesas afastadas umas das outras. Já a parte interna é bem animada, com mesas mais próximas e clima de bar (inclusive o nome completo do lugar é "A Casa do Porco Bar"), com decoração bem preenchida - e bem brasileira - e cozinha aberta. 

É o cardápio? Não, é o libreto da ópera! Chique, bem

É o libreto da ópera? Não, é o cardápio! Chique, também

Animada, mesas próximas e clima de bar? Sim!

Cozinha aberta e porco sendo assado? Temos!

Cores, porcos, samambaias? Aos montes!

Foto do afamado Jeffinho, informações diversas? Presentes!

    O cardápio é físico, nada dessa praga de QR Code. Tem formato de folder, com duas abas que se abrem, mas é tudo resolvido em uma página. O curto texto que introduz o conceito da casa começa com a frase "um santuário suíno", o que já define bem a proposta (caso já não estivesse óbvio pelo nome): porco de tudo que é jeito. O menu tem alguns desenhos e frases espirituosas, e as opções traduzem a vocação de bar, com muitos beliscos e entradas para compartilhar. A seção do cardápio denominada "Pra cumê", que traz o que chamaríamos de pratos principais, não passa de meia dúzia de opções, com pratos individuais ficando ali perto da casa dos cem reais. Há também um menu-degustação de oito etapas, chamado D.O.C. (Denominação de Origem Caipira), custando R$ 348,00 por pessoa, mais R$ 269,00 caso se queira harmonizar com vinhos. Mas a experiência completa leva cerca de uma hora e meia, e estávamos $em tempo di$ponível, $abe?

Um pouco do cardápio e um pouco de dedos

    Depois de algum tempo de debate, em que quase escolhemos como entrada a "Salada Croc-corc" (chips de mandioquinha + folhas + camarão + ovo frito + torresmo, R$ 89), acabamos ficando com as "Linguiças na Brasa" (llinguiça de porco da casa + pão de torresmo + farinha de mandioca + saladinha de cenoura e cebola + vinagrete batido, R$ 79). São seis linguiças, e achamos que talvez a proporção pudesse ser um pouco melhor, com menos linguiças, ou com mais acompanhamentos. Mas comemos tudo, linguiça deliciosa, levemente braseada, acompanhamentos bons, com destaque para o vinagrete batido. 

Seis linguicetas, três por cada, é de saciar

    A Chris não é muito fã de torresmo/pancetta, por isso não daria para escolher uma entrada com esses ingredientes. No entanto A Casa do Porco, em sua farta carta de drinks, traz uma seção de "Drinks + Tira-gosto", pra quem quer "juntar a fome com a vontade de beber", como brinca o texto do cardápio. Então pedi o "Bloody Mary + Pancetta Com Goiabada" (R$ 50 com vodka nacional, podendo chegar a R$ 65 com vodka polonesa), pra saciar minha vontade de barriga suína. Vem um pedacinho só, na borda do copo, mas foi suficiente. Ah, e o Bloody Mary estava uma delícia, bem apimentadinho.

Tomate, vodka e pancetta 😋

    E já que entramos no assunto alcoólico, acho que poderia ser dado um pouquinho mais de espaço para as cervejas na carta de bebidas. São apenas seis, sendo que três são da Estrella Galicia (uma delas sem álcool) e três são da Trilha, cervejaria de São Paulo (uma delas feita especialmente para A Casa do Porco). O preço das brejas também é um tanto inflacionado, com a pilsen da casa saindo por R$ 52 na garrafa de 600ml. Ok, é uma bela pilsen, bem lupulada, mas é uma pilsen por cinquenta e duas moedinhas de um real. Pesado. Tomamos duas, lá se foram cento e quatro moedinhas. Pesadíssimo.
 
    O "Porco San Zé" é o prato mais famoso da casa. Vale colocar aqui a descrição do cardápio: "Nasceu no Paraguai. Mas só foi batizado, educado, consagrado e transformado em celebridade em São José do Rio Pardo, pelo chef Jefferson Rueda". Trata-se de um porco cozido lentamente por seis horas, e trazido à mesa com acompanhamentos variados, a depender do dia, "o que veio da horta", como está escrito no menu. O garçom nos explicou que não é possível escolher qual pedaço do porco vem à mesa, se eles fizessem isso todo mundo iria pedir só os cortes-celebridade e os outros ficariam esquecidos. Era certo que pediríamos um desse para um de nossos pratos principais (R$ 125). Restava escolher o outro, e acabamos optando pelo "Porco à milanesa" (lombo de porco à milanesa + burrata + molho de tomate caseiro + salada + talharim na manteiga, R$ 138). Nós até dissemos para o garçom que a Chris preferia carne sem gordura, e ele disse que tentaria trazer o San Zé com algum corte assim. Mas, como não tínhamos certeza se daria certo, resolvemos só decidir o que cada um comeria quando os pratos chegassem.

    Como o corte do San Zé que veio à mesa não era tão desengordurado assim, Chris acabou ficando com o "Porco à milanesa". Acho que ela não tem reclamações a fazer sobre isso, uma vez que só escutei gemidos de prazer vindos do lado dela da mesa. Ela disse que dispensaria o macarrão com manteiga, que o porco em si estava gostoso e macio, mas que o que verdadeiramente a fez gemer foi a junção do molho de tomate com a saladinha e a burrata, que vinham por cima da carne. É uma combinação inusitada essa de salada e burrata em cima de uma milanesa, mas que deu muito certo.  
 
Os gemidos ainda são quase audíveis

    Eu fiquei com o "Porco San Zé", que veio acompanhado de feijão tropeiro, farinha de mandioca, salada de couve e tartar de banana. Começando pelos acompanhamentos, o feijão tropeiro e a farinha de mandioca estavam bons, a salada de couve, com um toquezinho de limão, estava uma delícia, e o tartar de banana era sem dúvida o melhor, com leve acidez, excelente para contrastar com o salgado do prato. Os pedaços de porco pareciam ser da barriga, pela combinação de pele crocante, carne e gordura. Estava muito bom, mas eu não gemi tanto quanto a Chris. Ambos provamos de tudo, ela comeu o meu, eu comi o dela (tenho a impressão de que partes desse texto, fora de contexto, poderiam ser publicadas em um livro erótico), e ambos concluímos que o mais inesquecível de tudo foi mesmo o milanesa com os trem por cima.
 
O San Zé, de São José do Rio Pardo

Amuntadinho no prato

    É preciso dizer que houve um problema de demora entre a entrada e os pratos principais (coisa de uns quarenta minutos), o que fez com que, como disse a Chris, nosso corpo avisasse ao nosso cérebro que estávamos saciados. Ficamos sem fome, resumindo. Ainda assim cumprimos nossa função social de comer nossos pratos principais, e ainda pedir uma sobremesa. O cardápio lista quatro opções, algumas bem interessantes, mas não foi difícil escolher o "Romeu e Julieta" (sorvete de goiaba + espuma de requeijão + goiabada cremosa + toffe, R$ 62). É servido na casquinha de sorvete mesmo, com um arame amparando para que fique de pé. Chris deu só uma experimentada na espuma de requeijão, e não curtiu, ficou comendo só o sorvete mesmo. Eu estranhei à princípio, mas depois achei bem interessante o forte contraste entre o salgado e picante da espuma com o adocicado e frutado do sorvete, da goiabada e do toffe (que a gente só foi encontrar lá no finalzinho da casquinha). 
 
 
E ainda tem umas foinha

    Apesar de a reserva ter sido feita especificamente solicitando uma mesa na calçada, ainda nos foi oferecida a possibilidade de ficar do lado de dentro, no balcão, por conta do friozinho da capital paulista. Achei simpático. Nosso atendimento inicial demorou um pouco, uns cinco minutos para sermos atendidos, e também tivemos a demora citada para a entrega do prato principal. Mas não tivemos problemas para encontrar funcionários disponíveis, eles estavam sempre passando para lá e para cá. Mais importante, demonstram ótimo conhecimento do cardápio e são atenciosos e simpáticos na medida certa.  

    A Casa do Porco foi o fechamento de um dia em que visitamos museus, almoçamos sanduíche de pernil no Bar e Lanches Estadão e assistimos a uma ópera no Theatro Municipal. Um dia que só uma cidade como São Paulo pode proporcionar. É bonito de ver como essa região do centro, geralmente associada a insegurança e medo, está viva e dinâmica, com os moradores da cidade ocupando os espaços que lhes pertencem, e o poder público fazendo minimamente o que lhe cabe. A Casa do Porco, fundada em 2015, tem um pouco a ver com essa revitalização da região, ao atrair olhares, e paladares, para essa parte da cidade. Nossos paladares foram atraídos, e gostamos do que provamos, mas Chris achou que não há motivos para um retorno à Casa do Porco. Já eu acho que dá pra fazer uma nova visita quando estivermos com mais tempo pra saborear aquele menu-degustação, sabe?


AVALIAÇÕES (Primeira nota da Chris, segunda nota do Fê; ao lado do quesito está o peso dele na média final):

Ambiente(2): 7,5 e 8  
Serviço(2): 7 e 7,5
Entrada(2): 6 e 7
Prato principal(3): 7,5 e 7
Sobremesa (2): 5 e 7
Custo-benefício(1): 6 e 6
Média: 6,62 e 7,16
Voltaria? Não e sim

Serviço:
R. Araújo, 124 - República - São Paulo - SP
Telefone: (11) 3258-2578
Site: https://acasadoporco.com.br/
Instagram: @acasadoporcobar