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terça-feira, 7 de outubro de 2025

Cucina si Italianissimo (Santana de Parnaíba - SP) - 27/09/2025

 


    Minhas tentativas de traduzir o que significa o nome do restaurante não foram totalmente conclusivas. "Cucina" significa cozinha, até aí, beleza, nem precisa ser genial pra saber. Aí esse "si" não é sim, mas o pronome impessoal, tipo "dane-se" ou "furique-se". O que leva a crer que "Cucina Si Italianissimo" deve ser algo como "Cozinha-se Italianíssimo", não querendo dizer que vão cozinhar o Andrea Boccelli, mas sim que a cozinha do lugar é muito da italiana. Independentemente da tradução, lá fomos nós para o agradável restaurante, situado bem no centro de Santana de Parnaíba, atrás da Igreja Matriz da cidade, para uma refeição abençoada pela avó de Jesus Cristo. Amém!

Não sabe italiano, mas pelo menos a foto ficou ó, uma m...

    Todo o centro de Santana é tombado pelo patrimônio histórico, o que significa dizer que jantamos em um casarão histórico do século 19. Toda a decoração remete mesmo ao passado, desde a fachada, com janelas de madeira, até a parte de dentro, com espelhos, móveis que poderiam estar em um museu e fotos antigas na parede. Realmente traz uma sensação de volta ao passado. Existem dois ambientes climatizados, mas também é possível ficar na parte da frente, que conta com algumas mesas, ou na parte de trás, também aberta, ao lado da piscina do casarão (a piscina deve ser um adendo mais recente ao imóvel).
 
Aí melhorou um pouco, dá pra ver alguma coisa

Óia, meteu uma foto artística

 
Tefolone antigo, e a Chris compondo na paleta de cores

Fantasma assutador no casarão de 1800 e trelelê

Chris sentindo as vibrações fantasmagóricas

    Apesar do apreço pela tradição, o Cucina não disponibiliza cardápio físico, apenas por QR Code. Já escrevi algumas vezes o quanto eu acho isso chato, mas vou escrever de novo: acho isso chato. Pois bem. São algumas opções de entrada, que são listadas como "Antipasti e insalate" (não tem como ler essas coisas e não imaginar a mãozinha balançado bem italianamente), e trazem pratos clássicos como brusquetas e burratas. Escolhemos uma não tão italianíssima, o Camembert Miele (queijo grelhado e cremoso finalizado com mel e farofinha de nozes, acompanhado de pão italiano torradinho, R$ 84). Você, que é espertinha, já deve ter notado que "miele" significa mel em italiano. E camembert é aquele queijo francês mesmo. Abelhas e geografia à parte, a entrada estava bonita, com o pão torradinho na medida certa, o queijo numa textura ótima, escorrendo no corte, e a farofinha de nozes com mel enriquecendo cada garfada - inclusive, poderia ter vindo mais dela. 

Tem lá sua beleza, o camembert com pães italianos


    Para os pratos principais as opções são bem variadas, e divididas em várias sub-seções. Primeiro temos "Pasta di grano duro", que são as opções de massa seca, focada em pratos com linguine e penne. Depois vem os "Risotti", eles mesmos, os risotos, que não poderiam faltar. Em seguida o menu traz os pratos de "Pasta fresca", ou seja, de massa fresca, como nhoque e lasanha. Depois há uma boa quantidade de pratos "Vegano e low carbo", em número bem maior do que costumamos encontrar, o que faz do Cucina uma ótima opção para quem busca aquela saudabilidade. Por fim temos "Le carne e i pesci", que são carnes e peixes, todos com acompanhamento ou de massa ou de risoto. Para os papais e mamães, tem também opção Kids. Ou seja, não dá pra reclamar de falta de variedade. Todos os pratos são individuais, e a imensa maioria fica abaixo dos cem reais.

    Ambos escolhemos pratos da seção "Pasta fresca". Chris escolheu o Gnocchi Fico e Parma (nhoque de batata vermelho com creme de queijos, parma , figo fresco e farofa de nozes, R$ 92). Essa é a descrição exata do prato no cardápio, mas como o nhoque não é vermelho, suposmos que a batata utilizada seja vermelha, a batata Asterix. Mas a concordância de gênero foi o menor dos problemas. Podemos dizer que a Chris gostou de todas as garfadas - enquanto durou o presunto. Ele trazia o sal que faltava ao creme de queijo, deveras insosso. O figo nunca foi conhecido pela personalidade forte, tadinho, então ele não ajudava muito. Pra piorar, a textura do creme foi ficando cada vez mais massuda à medida que o prato esfriava. Escrevo esse texto ainda sem saber a nota da Chris, mas creio que não será das melhores.

É, não vai passar de ano, viu?

Mas havia uma esperança de felicidade

    Minha massa fresca foi o Sorrentino alla Carne e Tartufo (produção própria limitada! Massa, recheada com ossobuco, cozido por duas horas no vinho tinto, servido na manteiga trufada e tomatinho cereja, R$ 108). A contação de história da descrição é boa: produção própria limitada, cozido por duas horas, um canto da sereia que me encantou. O tal sorrentino parece um ravióli, e é invenção de nossos hermanos argentinos (apesar de homenagear a cidade de Sorrento, na Itália). Nada de miséria no recheio, muita carne, molho delicioso, com aquela untuosidade da manteiga que amarra todos os sabores, e cada tomatinho cereja fazendo a alegria do meu paladar - e do da Chris, que de vez em quando roubava um pouco do meu prato, pra compensar a tristeza com o dela. Para citar um ponto negativo, o recheio poderia estar um pouco mais molhadinho.

Já esse passou de ano com alguma folga

Mas a cara não tava tão feliz, vê como são as coisas
    
    Resolvemos fazer a última parte da refeição nas mesas do lado de fora. Uma vez que nada nos chamou muito a atenção nas opções de sobremesas, acabamos indo para o clássico Tiramisù (uma combinação irresistível de camadas de suave creme de mascarpone e biscoitos champagne embebidos em café expresso, finalizado com uma polvilhada de cacau em pó, cada garfada traz o autêntico sabor italiano que derrete na boca! R$ 42). Perceba que a contação de história da descrição também é das boas. Mas, nesse caso, o que veio à mesa não correspondeu. A apresentação é no mínimo questionável, com o doce vindo dentro de um pote de vidro, meio que tirando toda a beleza intrínseca, inalienável e indubitável da sobremesa. O sabor de café estava presente em boa intensidade, mas aquela junção de todos os elementos do tiramissu acaba se perdendo com a apresentação "amacetada", já que ora vem muito de uma coisa na colherada, ora vem pouco de outra coisa. 
 
Um clássico servido de maneira não clássica, não deu bom

Sombras góticas na Via Buozzi

    Quando chegamos ao restaurante, fomos conhecer os ambientes, e chegamos a cogitar nos sentar na parte dos fundos, perto da piscina. Mas havia uma escada para chegar até lá, e eu comentei com a Chris, "melhor não, vamos dar trabalho pros garçons, ficar indo e voltando as escadas". Um dos garçons nos ouviu e disse, "estamos aqui para isso" - sem parecer que na verdade estava dizendo "vai, senta lá, desgraça". Profissionalismo, que chama. Fomos bem atendidos, inclusive com margem para uma brincadeira sobre o fato de a casa, talvez, quem sabe, abrigar fantasmas que podem fazer a mesa se balançar sozinha. Em relação aos tempos de entrega dos pratos, tudo dentro do normal. Na parte final, foi o garçom quem nos disse, quando saímos para a Chris fumar, que ele poderia nos servir a sobremesa na parte de fora. O único porém é que acabamos ficando "esquecidos" por lá, e depois eu tive que entrar para pedir a conta. Mas, de maneira geral, o serviço foi bem satisfatório.

    Santana de Parnaíba é uma cidade turística, cujas atrações preenchem um belo dia de passeio. Mais do que isso talvez seja exagero. Portanto, o mais provável é que não voltemos para lá - apesar de termos ficado com muita vontade de participar de alguma festividade que tenha o tradicional samba de bumbo da cidade como atrativo. Mas, mesmo que voltemos, provavelmente não voltaríamos ao Cucina si Italianissimo. Apesar da entrada interessante e do acerto no meu prato principal, o prato da Chris e a sobremesa, aliados à certa obviedade do menu, nos levam a essa decisão. Esperamos que Suzana Dias, neta do cacique Tibiriçá e fundadora de Santana de Parnaíba, nos perdoe. Junto com a avó de Jesus. Amém!
 
AVALIAÇÕES (Primeira nota da Chris, segunda nota do Fê; ao lado do quesito está o peso dele na média final):

Ambiente(2): 7,5 e 8
Serviço(2): 7 e 7
Entrada(2): 7 e 7
Prato principal(3): 5 e 7,5
Sobremesa(2): 4 e 5
Custo-benefício(1): 5,5 e 6,5
Média: 5,95 e 6,91
Voltaria?: Não e não

Serviço:
R. Condé de Monsanto, 37 - Centro Histórico - Santana de Parnaíba - São Paulo
Telefone: (11) 94593-1913
Instagram: @cucinasiitalianissimo

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Unüm (São José dos Campos - SP) - 19/02/2025

 

    Desde que me formei na faculdade, em 2001, voltei poucas vezes ao bairro Urbanova. Ele mudou bastante. Onde antes havia terrenos e mais terrenos, hoje há condomínios, prédios, casas e comércios diversos. Em algum lugar por ali o jogador Casemiro tem uma casa, o que contribuiu para a fama do bairro de ser um lugar de endinheirados. Longe de fazermos parte dessa classe social, eu e Chris nos aventuramos por lá, para visitar o Unüm Bistrô, que fica em uma rua relativamente tranquila, em um pequeno boulevard com mais alguns outros pontos de comércio.
 
Pela definição da foto se percebe que não são endinheirados

    O lugar é bem pequeno, fazendo jus ao título de bistrô. Existem algumas mesas do lado de fora, embaixo de uma marquise, e mais algumas do lado de dentro. É aconchegante, e  tem uma decoração simples, mas cuidadosa. As mesas tem dois lugares, demonstrando a aptidão do lugar em receber casais. As mesas encostadas na parede tem um sofázinho bem confortável.

O sofázinho confortável ficou pra Chris

A cadeira confortável ma non troppo ficou com o Fê

    Primeiro ponto positivo do serviço: menu físico. Confesso que essa moda de QR Code, sustentabilidade à parte, tem me incomodado. O cardápio físico facilita muito a visualização das opções disponíveis, e sem depender de sinal de internet. Será que é coisa de véio? 

    Entre as entradas, nada de muito inovador, existem opções de brusqueta, carpaccio e aquela que mais nos atraiu, o rolinho de Parma (rúcula, presunto parma, maçã caramelizada, parmesão, crema balsâmico e pesto de manjericão, R$ 72,90 ). A apresentação é um pouco caótica, com os rolinhos todos muito juntos, formando uma massaroca. Também achei absolutamente incompreensível a presença de palitinhos de plástico, nada condizentes com o ambiente, e ainda por cima nada práticos para "palitar" os rolinho e  levá-los à boca. Quanto ao sabor, gostamos, estavam bem delicados, especialmente considerando a força dos ingredientes. A redução de balsâmico talvez tenha dominado um pouco, sentimos falta de mais pesto. Mas havia bastante contraste na boca, o que é sempre interessante.
 
Incompreensíveis, os palitos

    O cardápio traz divisões bem claras para os principais, entre carne bovina, suína, frutos do mar, massas e opções vegetarianas. Me parece bem clara uma certa vocação italiana da cozinha, apesar da alcunha de bistrô. Os pratos são individuais, e os preços variam de R$ 72,90 (lasanha de ragu de mignon ao pomodoro) a R$ 119,90 (arroz colorido de bacalhau com posta)

    Chris escolheu duas coisas que ela ama: risoto e filé mignon. Foi de risoto de parmesão com cubos de mignon e crispy de parma (R$ 99,90). Ela deu uma primeira garfada no risoto, sem mais nada, e disse: "tá com gosto de água". Não que eu precise referendar as coisas que ela diz, mas ela me deu uma garfada, e a impressão é que o risoto não foi feito com caldo, e sim com água mesmo - e sem sal, né? Quase nada de gosto de parmesão. A garfada completa, com o presunto e o mignon, até que dava uma equilibrada nos sabores. Mas seria muito melhor, claro, se o risoto também contribuísse com alguma coisa, sem fazer a fama na aba dos outros, o folgado.
 
O escriba não citou as flores, pô

    Eu fiquei com vontade de vários pratos, mas acabei escolhendo um porquinho, o medalhão suíno com mousse de cabotiá e farofa crocante (farofa com queijo coalho, bacon e castanha de caju e molho de conhaque com laranja, R$ 86,90). Por etapas: purê bem correto, textura macia, bastante sabor da abóbora, adocicado. Farofinha deliciosa, bem crocante, com elementos salgados (queijo coalho, bacon) que contrastavam muito bem com o purê. Medalhões ligeiramente secos, mas macios, fáceis de comer, e saborosos. O molho acabou se perdendo um pouco, senti falta de mais acidez, que ele poderia trazer. Garfada completa muito saborosa e cheia de sensações.

Aqui tem fulô também, o cara nem cita, insensível

    A inclinação italiana da cozinha fica mais clara na seção de sobremesas, que já começa com diversas opções de canolis. Mas também há uma torta de maçã que se assemelha a um apfelstrudel, além do onipresente petit gateau, aqui em versão com doce de leite e coco. Como são quatro opções de canoli, e eles aparecem antes das outras sobremesas, achamos que eram uma especialidade da casa. Foi uma boa escolha. Chris optou pelo de canoli de frutas vermelhas com pistache (R$ 25,90 ). Tivemos, finalmente, a Chris fazendo aquele "hmmm, que delícia", que ainda não tinha rolado no jantar (nem quando ela olhou pra mim). Bonito, crocante, com sabores equilibrados, nada enjoativo. Eu escolhi o canoli de limão siciliano (R$ 19,90 ), e os mesmos adjetivos usados para o canoli da Chris servem também para o meu.
 
Crocante e gostoso!

Gostoso e crocante! That´s what she said...

    O restaurante é pequeno e estava vazio, de modo que tivemos a equipe de atendimento praticamente só para nós. O serviço foi bem correto, com funcionários simpáticos e bom tempo de espera entre os pratos - embora o meu principal tenha chegado um pouco antes do que o da Chris. Pela pequenez do lugar existe aquele problema de, às vezes, o garçom ficar próximo demais - pô, assim a gente nem pode falar mal da comida com liberdade. Fora isso, não temos muito do que nos queixar quanto ao serviço, embora não gostemos muito quando o garçom pergunta, após cada etapa da refeição, se estamos gostando. Mas aí pode ser chatice nossa. Diz aí, você gosta disso?

    Unüm significa "um", ou "único", em latim. E essa é a proposta do restaurante: ser um lugar único. De fato, em se tratando de São José dos Campos, um tipo de restaurante pequeno, com esse cuidado na decoração e apresentação dos pratos, não é tão comum. Os preços não são baratos, mas são condizentes com esse formato de estabelecimento - quando se coloca  "bistrô" no nome parece que é salvo conduto pra cobrar caro. Falando nisso, acho que existe alguma confusão no conceito também, colocando um nome em latim, focando mais em pratos italianos (até aí ok, combina), mas colocando um termo em francês no nome, talvez pra trazer alguma sofisticação, vai saber. Falando nos pratos, existem alguns deslizes, como palitinhos de plástico, e a indesculpável falta de sabor no risoto da Chris. Mas minha experiência, de maneira geral, foi de boa a ótima. Por isso eu voltaria ao Unüm. Já a Chris não foi feliz no prato principal, e não repetiria a visita. Então provavelmente vamos ficar só na visita unüm, não vamos pra duo, tria, quattuor, quinque e o resto dos números em latim.
 
AVALIAÇÕES (Primeira nota da Chris, segunda nota do Fê; ao lado do quesito está o peso dele na média final):

Ambiente(2): 6 e 7
Serviço(2): 8 e 7,5
Entrada (2): 8 e 7
Prato principal(3): 4 e 8
Sobremesa(2): 7 e 8
Custo-benefício(1): 6 e 7
Média: 6,33 e 7,5
Voltaria?: Não e sim

Serviço:

Avenida Ironman Victor Garrido, 651|loja 02 - Urbanova - São José dos Campos - SP
Telefone:
(12) 98849-4597
Instagram: @unumbistro