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sábado, 11 de junho de 2022

Churrascaria Barranco (Porto Alegre - RS) - 25/04/2022

    "Quando em Roma, faça como os romanos". Ainda não fomos à Roma, então resolvemos aplicar o velho dito a Porto Alegre, onde estivemos em viagem de férias. Mais especificamente em um assunto que é bastante caro aos portoalegrenses: carne. Depois de algumas pesquisas, a tradicional Churrascaria Barranco, na ativa desde 1969, surgiu como um estabelecimento bastante frequentado pelos locais. Foi para lá que nos rumamos em uma (até então) agradável noite de segunda-feira.

    Calma. A noite não deixou de ser agradável por alguma tragédia. Quando chegamos, nos instalamos no aprazível espaço ao ar livre, cheio de árvores, que rendeu o nome ao restaurante. Mas no meio da refeição começou a cair uma chuva chata, e tivemos que nos mover para a parte interna, bem menos charmosa. Então podemos dizer que este foi o primeiro motivo a deixar a noite menos agradável. O restaurante é bem grande e, somando partes interna e externa, tem capacidade para receber algumas centenas de pessoas. Mesmo em uma segunda-feira, estava com bastante gente, embora nem perto da lotação da casa. 

Charme do lado de fora

Do lado de dentro, só o charme da Chris

    A Chris é um tanto fanática por corações. Não aqueles bregas feitos com a mão, mas os de galinha mesmo. Por conta disso, entre as diversas opções de salada no menu de entradas, junto com algumas opções de linguiça, optamos mesmo pelos músculos cardíacos dos galináceos. Foi um começo de refeição esperançoso. Não tinha lá uma grande apresentação, e poderia ter vindo muito mais da cebola tostada, que tava uma delícia. Mas os corações estavam perfeitos, com textura macia, nada borrachudos, tostadinhos por fora, bem temperado, e com uma farofinha junto. Faltou vinagrete. Aliás, me perdoe a caixa alta, mas NÃO TEM vinagrete no cardápio. Para dois sudestinos como nós, isto entra na conta do inimaginável em uma casa de carnes.
 
 
Inimaginavelmente, SEM VINAGRETE
    
    Nos pratos principais, há algumas opções de carnes e aves diversas, não feitos na churraqueira, e até massas. Mas trata-se de uma churrascaria, então o foco é nas carnes feitas na grelha. O funcionamento é o seguinte: escolhe-se uma proteína, que tem valores diferentes a depender do corte, e os acompanhamentos à parte, também cobrados separadamente. Há um espaço reservado apenas aos cortes de angus (aquele boi mais boizado, e mais caro), e depois vem os outros cortes, como filé mignon no espeto (R$ 105,00), paleta de cordeiro mamão (R$ 155,00), coxa de galeto (R$ 48,00), entre outros. Escolhemos a picanha à barranco (R$ 108,00). Lembrando que estes são apenas os valores das proteínas, em porções de três bifes, no caso da picanha. Como acompanhamento gratuito, a casa oferece farofa e dois molhos, um de maionese e outro rosé. Pedimos à parte pão de alho (R$ 8,00), arroz (R$10,00) e aipim frito (R$32,00).

    Solicitamos nossa carne mal passada. Picanha, né? Até eu, que não sou tão vampiresco quanto a Chris, gosto dela sangrando. O garçom trouxe a carne, e fez os primeiros cortes pra gente, de um pedaço que estava, de fato, mal passado. Mas era o único. Os outros dois estavam um ao ponto e outro bem passado. Parece que eles quiseram nos mostrar que sabiam fazer todos os pontos de carne. Vai saber. Estava bem temperada, e saborosa. Mais uma vez tenho que escrever: picanha, né? Claro que estava gostosa. Mas não foi a experiência que esperávamos com o corte - e ainda havia alguns pedaços com nervo. Em relação aos acompanhamentos: pão de alho gostoso (se tem alho, é gostoso, e ponto), mas branquelo; arroz meio sem tempero, mas soltinho; o aipim era na verdade um bolinho de aipim (não podemos alegar ignorância, fomos avisados que era bolinho), e era bem besta, sem graça que só ele.


Picanha, né?

Um besta, um branquelo, um soltinho
  
    E aqui, apenas para mostrar como uma das carnes estava bem passada:
 
Picanha?
    
    A casa tem várias opções de sobremesa, mas a maioria de coisas bem banais, que não pareciam ter qualquer participação do restaurante em termos de invenção ou mesmo de fazimento. Daí que pedimos uma cassata siciliana, que é uma espécie de torta de sorvete. Quando chegou na mesa, tinha até a etiqueta da empresa que faz o doce. De modo que não entrou em nossa avaliação, porque seria injusto, tanto se fosse bom quanto se fosse ruim (não era nenhum dos dois, era razoável).

    O serviço não teve grandes problemas, mas poderia ser mais explicativo. São muitos garçons, mas eles parecem partir do pressuposto que a pessoa já conhece o funcionamento da casa. O atendimento é rápido, e sempre tem um garçom por perto. Quando começou a chuviscar, prenunciando uma chuva que acabou sendo bem forte, fomos nós que tivemos que tomar a iniciativa de começar a nos recolher para dentro. Depois que começamos, os garçons vieram nos socorrer, e ajudaram com a "mudança".

    Sabemos que um restaurante não pode vender carnes ao preço que o açougue vende. E também sabemos que a carne está cara. No entanto, cobrar 108 reais em três pedaços de picanha, com dois terços vindo em pontos diferentes do que pedimos, e ainda com nervos, não nos pareceu perdoável. Se estivesse tudo à perfeição, já iríamos certamente dizer "mas também, custou 108 pila". Mas não estava. E foi esse o principal motivo que nos fez concordar que não repetiríamos uma visita ao Barranco. Os maravilhosos corações galináceos da entrada não foram suficientes para conquistar nossos corações peludos.

AVALIAÇÕES (Primeira nota da Chris, segunda nota do Fê; ao lado do quesito está o peso dele na média final):

Ambiente(2): 7,5 e 8
Serviço(2): 7 e 7
Entrada (2): 9 e 7,5
Prato principal(3): 4 e 5,5
Custo-benefício(1): 5 e 5
Média: 6,4 e 6,65
Voltaria?: Não e não

Serviço:

Av. Protásio Alves, 1578 - Porto Alegre - RS
Telefone: (51) 3331-3962
Site: https://www.churrascariabarranco.com.br/brco/
Facebook: @churrascariabarranco
Instagram: @churrascariabarranco

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Calle 54 (São José dos Campos - SP) - 01/02/2018


Por motivos diversos, ficamos muito tempo sem ir a nenhum restaurante, por isso este blog está parado desde setembro de 2017. Para este retorno, escolhemos um restaurante com uma pegada argentina, que fica dentro do Shopping Colinas em São José dos Campos. O motivo simbólico é que em breve estaremos embarcando para a terra dos hermanos. Explicando o nome do lugar: calle é "rua" em espanhol, e 54 é o DDI da Argentina. O restaurante tem três unidades na cidade de São Paulo e apenas essa fora da capital. 

Chegando pra abalar na Rua 54

Dentro de um shopping, não dá pra exigir grandes coisas do ambiente. Mas é certo que o Calle 54 se diferencia dos restaurantes comumente encontrados nesses lugares. Espaçoso, com alguns sofás estofados, uma boa brigada de garçons, fica evidente que não estamos em um fast food - muito embora a confusão típica de um shopping esteja logo ali ao lado.

A confusão de um shopping de um lado...

...e uma cara de besta do outro lado.

Não resistimos ao couvert, que se chama La Recoleta (um dos bairros mais famosos da capital argentina) e vem com pães ao molho chimichurri na parrilla (a grelha deles) e matambrito (uma carne enrolada e assada) com limão siciliano (R$ 9). Matambrito é um apelido carinhoso para matambre, que é a junção das palavras "matar" e "fome" em castelhano. Uma comida originalmente criada para matar a fome de trabalhadores, com um corte de carne normalmente descartado pela "nobreza". A versão do Calle 54 estava absolutamente deliciosa, bem temperada e derretendo na boca. Para completar, pedimos também o choripán (R$ 9,00), uma espécie de pão com linguiça. Este estava apenas correto, não trouxe exclamações a nenhum de nós. O molho chimichurri que o acompanhava deu uma animada no sabor.

Muy rico matambrito!

Muy pobre choripán!

Para os pratos principais o cardápio, recheado de fotos, lista em destaque todos os cortes de carne oferecidos, com as nomenclaturas utilizadas na Argentina e a "tradução" em português, quando necessário. É o caso, por exemplo, da tapa de cuadril, que nós conhecemos como picanha, ou do lomo, que é o nosso filé mignon. Ao escolher essas carnes o cliente tem direito aos acompanhamentos do dia, escolhidos pelo chef, além de um molho à parte. Alguns cortes tem duas opções de tamanho (260g e 320g). Para quem não gosta de churrasco, há também algumas poucas opções com peixe, frango e hamburguer.

Chris queria uma carne com bastante sangue, e pediu o baby beef (260g, R$ 56,90), acompanhado de molho chimichurri. Ela pediu ao ponto para menos, mas foi bem clara com o garçom sobre o fato de que queria a seiva escorrendo (sim, ela tem um quê transilvânico). De fato a carne veio no ponto pedido, mas sem o sangue que ela gostaria. Problemas com o corte escolhido, talvez, ou com a forma de cocção. Mas estava saborosa e macia, embora não muito bonita. O molho, o mesmo que já tínhamos comido com o choripán, estava gostoso.

"Se eles querem meu sangue, terão o meu sangue nem no fim"

Eu escolhi o ojo de bife (miolo da parte dianteira do contra filé, 260g, R$ 63,90) ao ponto. Não sou fresco com carne, e embora prefira ao ponto, não ligo de comer mal passada ou ao ponto pra menos. Sorte a minha, porque minha carne veio mais mal passada que a da Chris. Erro feio. Também não estava nada bonita, meio branquela, muito fina e com bastante nervo. Dito tudo isso, estava saborosa e macia - exceto, claro, nos nervos duros. Escolhi o molho de mostarda em grãos, bem agradável.

Ponto errado, fina, branquela, com nervos, mas gostosa

Nossos acompanhamentos foram iguais e já estão incluídos no preço do corte citado acima. O sistema é de rodízio, ou seja, o garçom passa na mesa servindo, o que é bom por evitar o desperdício. Os únicos que ficam na mesa são o vinagrete (bonzinho) e a farofa (muito boa). No dia de nossa visita tivemos arroz italiano (com tomate seco e azeitonas, bem temperado e no ponto certo), camponata de legumes (pimentão, abobrinha, berinjela e cebola, achamos que não combinou muito com a carne), polenta frita (okeizinha) e por último mas não menos importante, um creme de batata doce (textura agradabilíssima, sabor delicado, uma nota dez se comêssemos só ele).

Eu aceitaria suborno e daria dez em tudo em troca da receita do creme de batata doce

Na hora do refestelo adocicado, aquelas coisas de sempre (petit gateau, creme de mamão, pudim) e a diferentinha torta banoffe (R$ 14,90), que pedimos. Banana passada na parrilla, envolta em biscoito, com doce de leite argentino e o desnecessário chantili por cima. Apesar da presença do desnecessário (eu tenho birra com chantili, perdoem-me os que gostam), o doce estava gostoso, com a banana e o biscoito dando um equilíbrio ao dulçor bem pronunciado do doce de leite. Também achamos que a apresentação poderia ser mais caprichada, o copinho deu uma escondida em tudo. Ah, faltou dizer que o preço do doce incluía também um simpático cafezinho, que a Chris adorou.

Sobrou copo (e chantili!)

O simpático e a simpática


Antes de falar do serviço, falarei de uma estupidez de minha parte que acabou custando um bom dinheiro. Vi a máquina de chopp da Heineken, e pedi um pra cada, mas recebi de volta o famoso "tem, mas acabou". O próprio garçom me ofereceu a Cauim, a gostosa pilsen da cervejaria Colorado, que já conhecíamos. Pedimos uma garrafa de 600ml, e quando ela acabou eu pedi outra só pra mim, já que a Chris não queria mais. Tudo isso sem perguntar o preço. Sei que a Cauim custa, no mercado, no máximo R$ 15. Pois o Calle 54 vende a glamorosos R$ 32,90. Um acinte. Pedir sem ver o preço é uma estupidez, mas vendê-la por esse valor é quase uma extorsão, que é, convenhamos, pecado maior do que a estupidez.

O serviço no Calle 54, em nossa visita, ganhou nota dez em simpatia, mas pecou bastante na agilidade e atenção. Ficamos muito tempo esperando, por exemplo, a nossa Cauim superfaturada, que vimos parada no balcão por um bom tempo até que alguém resolvesse nos trazer. Também ficamos muito tempo com os pratos sujos da entrada e do couvert parados na nossa frente, sem que ninguém se dignasse a retirar. Como ponto positivo podemos citar o fato de que o rodízio dos acompanhamentos funcionou direitinho, com a reposição sendo feita com agilidade. Também vale ressaltar, como já citado, a simpatia dos atendentes, criando um clima informal condizente com a casa.

Ao final da refeição estávamos parcialmente satisfeitos, e o que mais pesou na hora de decidir se voltaríamos ou não ao Calle 54 talvez tenha sido o custo-benefício. Inflacionada também pela cerveja, a conta ficou muito alta para o que recebemos de volta. E ambos decidimos que não voltaríamos ao lugar. Uma pena. Chris adorou, por exemplo, o mimo que veio junto com seu suco de abacaxi: um mini-pregador com um bilhetinho que dizia "Nunca deixa que o seu medo seja maior que a sua fé". Um conselho que vale também para o restaurante, com dois adendos: fé, atenção no ponto da carne e um preço justo pela Colorado, hermanos!

O bilhetinho e o suquinho que não ganhou nota, mas tava bom

AVALIAÇÕES (Primeira nota da Chris, segunda nota do Fê; ao lado do quesito está o peso dele na média final):

Ambiente(2): 6 e 6,5
Serviço(2): 6 e 6,5
Couvert(2): 8 e 8
Entrada(2): 5 e 6
Prato principal(3): 6,5 e 6
Sobremesa(2): 6,5 e 7
Custo-benefício(1): 5 e 6
Média: 6,25 e 6,57
Voltaria?: Não e não

Serviço:
Av. São João, 2200, Loja 126, Colinas Shopping – Jardim das Colinas - São José dos Campos - São Paulo
Telefone: (12) 3941-5222
Site: http://www.calle54.com.br/
Facebook: https://www.facebook.com/calle54sjc/

terça-feira, 20 de junho de 2017

Villa Velha (São José dos Campos - SP) - 14/06/2017


O que dizer de um restaurante que existe desde 1968? Antes de mais nada, parabéns!!! Exclamações são deselegantes em um texto, reza alguma cartilha, mas são inevitáveis ao falar de um estabelecimento que atinge essa marca. O Villa Velha pode ser considerado uma instituição joseense. É, certamente, o restaurante mais tradicional da cidade. Fica no centro antigo, em uma região que não tem tantos restaurantes afora aqueles destinados aos trabalhadores, que só abrem em horário de almoço. Portanto é ainda mais digna de aplausos sua longevidade, por estar longe do "circuito gourmet" de São José dos Campos.
 
Em 1968 nenhum de nós dois ainda frequentava restaurantes. Mas de minha parte posso dizer que entrar no Villa Velha é como entrar nos lugares em que ia com meus pais e meu irmão na década de 1980. Não me entendam mal, está tudo recém pintado, limpo, bem iluminado, com pé direito alto e salão amplo. Mas é um lugar que entrega sua idade à primeira vista - a começar pela cabecinha branca de sua brigada de garçons. Mas a idade passa também pela própria arquitetura do prédio, pelos armários onde são guardadas as louças, pelos quadros (todos à venda) que enfeitam as paredes e pela grande cozinha aberta. Nada disso é defeito, e acho que até casa muito bem com a comida servida por ali. O ponto negativo fica por conta dos banheiros, antigos, com cara de mal cuidados e com louças quebradas. 

Antiquado? Vintage? Clássico?

Para iniciarmos a noite enquanto tomávamos nossa Serramalte geladinha (600 ml, R$ 13), pedimos o couvert (R$ 18), composto de torradinhas, pão francês, pão de queijo, azeitonas, patê de aliche e patê de ricota. Até entendemos o pão francês não ser fresquinho, mas é imperdoável o pão de queijo vir frio, quase gelado. O patê de aliche estava bom, mas tinha textura de maionese. O patê de ricota estava sem graça como todo bom patê de ricota deve ser. E as azeitonas já nasceram boas, né? Na conta o couvert só veio cobrado uma vez, o que não sei se é praxe ou se foi alguma falha.

Põe no microondas o pão de queijo, catzo!

Aumente essa foto pra ver como tava essa cerveja

Resolvemos pedir também uma entradinha antes de partirmos para o prato principal. Escolhemos o creme de aspargos (R$ 35), que veio servido numa terrina prateada. Boa quantidade, dava para nós dois nos satisfazermos sem precisar pedir outro prato. Mas seguramos nossa vontade de comer todo o creme, que estava uma delícia, com o sabor dos aspargos presente, mas suave, muito bem temperado e com textura agradável. Ficou a dúvida se, caso não tivesse nos sobrado alguns pães e torradas do couvert, eles nos seriam servido com o creme. Esperamos que sim, porque creme com pão é uma pura (pura, viu?) combinação. 

A terrina e a pura combinação

O Villa Velha se apresenta, na placa que ostenta em sua fachada, como um restaurante de "cozinha internacional e churrascaria". Isso se reflete no cardápio, com a seção dedicada à cozinha internacional abarcando uma extensa gama de pratos clássicos de diversas culinárias, desde o strogonoff até o steak poivre, passando pelo espaguete à bolonhesa e pelo filé à cubana. Entre os churrascos há opções com camarão, frango, pintado, lombo e alguns espetos. Todos os pratos servem duas pessoas - ou quase todos.

Apesar de tantas opções, não tem jeito: na primeira vez que se vai ao Villa Velha, é imperativo que se peça o famoso pintado na brasa. Não era nossa primeira vez, mas como agora estávamos fazendo uma "visita oficial", com vistas a publicar a experiência aqui no blog, não poderíamos deixar de comer novamente o mais célebre prato da casa. Prova da deferência que lhe é destinada é o fato de que é o único prato que conta com opção individual no cardápio. Pintado ali é coisa séria, e observar as outras mesas é ver um desfile de pedaços do peixe passando pra cá e pra lá em espetos. Se o Villa Velha é uma instituição joseense, seu pintado na brasa é uma instituição do Villa Velha. Os peixes chegam semanalmente do Mato Grosso do Sul, segundo me informou o garçom. 

A pintadaiada na cozinha, direto do MS

Como já tínhamos comido couvert e entrada, acabamos optando por pedir a porção individual do prato (R$ 80, com molho tártaro e arroz à grega). São três pedaços de peixe, e quantidade de arroz e molho que foram suficientes para a nossa fome. O arroz veio soltinho, com uma coloração levemente amarelada, e saboroso. O tártaro da casa é bem pedaçudo e de sabor forte, equilibrando a doçura das uvas passas presentes no arroz. O peixe chegou à mesa com uma leve crosta, mas macio por dentro. Sua cor amarelada se deve provavelmente a alguma manteiga usada para assá-lo, o que o deixa um pouco gorduroso. Chris apertou o peixe com o garfo e a gordura escorreu pelo prato. O trio, quando experimentado junto, é bastante saboroso e equilibrado, mas o peixe sozinho carecia de um pouco mais de tempero. Ufa, difícil julgar um clássico, mas, como sempre, tentamos ser o mais justo possível. 

Notem que o pão de queijo frio foi ficando na mesa

"Crose" do "crássico"

Entre as sobremesas há algumas opções de doces caseiros e sorvetes, mas nada muito criativo, por isso acabamos optando pelo pudim de leite (R$ 9). Não é algo que possa ficar ruim nem com muito esforço, mas é certo que poderia ter bem mais calda. Eu também particularmente prefiro uma textura mais aerada. Mas podemos dizer que foi um trivial bem feito.

Trivial, mas bem feitinho, esse rapaz

Em uma quarta-feira de véspera de feriado, o restaurante estava bem vazio, com apenas alguns pares de mesas ocupados. Fomos atendidos o tempo todo por um dos cabecinhas brancas citados no começo do texto. Atendimento atencioso, demonstrando um óbvio conhecimento de todo o cardápio e sem evidenciar nenhum enfado com a função, mesmo já exercendo-a há tanto tempo - o que é de se louvar. À parte alguma demora para retirada dos pratos, não há o que reclamar do serviço. Graças à orientação do garçom em relação ao momento certo de fazer os pedidos, os tempos de espera entre as etapas foram sempre perfeitos.

Curioso que, mesmo não dando notas tão altas para os pratos, ambos concordamos que voltaríamos ao Vila Velha em uma outra oportunidade. Chris disse que o faria porque ficou com vontade de experimentar outros pratos do cardápio além do pintado na brasa. De minha parte, acho que é coisa do signo de virgem, respeitoso demais das tradições. Eu jamais poderia dizer não a uma instituição joseense. Ao menos não ao tipo de instituição que faz boa comida há quase cinquenta anos.


AVALIAÇÕES (Primeira nota da Chris, segunda nota do Fê; ao lado do quesito está o peso dele na média final):

Ambiente(2): 5 e 7
Serviço(2): 8 e 8
Couvert(2): 5 e 5
Entrada(2): 7 e 7,5
Prato principal(3): 6 e 7
Sobremesa(2): 6 e 6
Custo-benefício(1): 6 e 7
Média: 6,14 e 6,78
Voltaria?: Sim e sim

Serviço:
Praça Cândido Dias Castejon, 27 - Centro - São José dos Campos - São Paulo
Telefone: (12) 3923-2200
Site: http://www.restaurantevillavelha.com.br/
Facebook: https://www.facebook.com/restaurantevillavelha/

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Libertango (Campos do Jordão - SP) - 21/08/2015

A escolha não foi por acaso. O Libertango é um dos três únicos restaurantes de Campos do Jordão agraciados com uma estrela no Guia 4 Rodas 2015. Embora não sejamos escravos da publicação, sempre a levamos em conta na hora de escolher um restaurante na cidade que estamos visitando. A especialidade do Libertango é comida argentina, e isto já toca um sininho na mente: carne, carne, carne! Numa sexta-feira agradável (para mim e não para a Chris) na serra paulista, com termômetros em torno de 11 graus, chegamos ao local às 20h20, vinte minutos atrasados em relação à nossa reserva, mas ainda a tempo de fazermos uso dela.

Ói nóis aí antes de entrar no restô

Do lado de fora o Libertango acompanha o charme de onde está instalado, a Vila Capivari, epicentro da badalação em Campos do Jordão. Sua fachada tem flores nas janelas, e é toda pintada de azul e vermelho. No logotipo do restaurante temos, claro, um casal dançando tango. Lá dentro, ambiente acanhado e fervilhante. Quase todas as mesas estavam ocupadas. Ainda assim há uma distância razoável entre elas, dentro do que é possível. Nas paredes, muitos quadros remetendo à Argentina, e alguns orgulhosos certificados de cozinha acima da média do Guia 4 Rodas. Cortinas e teto vermelhos dão "quentura" à decoração, contrastando com o frio jordanense. Para nossa sorte, fomos instalados em uma mesa bem ao lado da parrilla, a grelha em que os argentinos fazem o seu churrasco. Assim pudemos acompanhar toda a habilidade dos parrilleros em administrar tantas carnes ao mesmo tempo, tendo que saber exatamente quando tirá-las para que o ponto esteja do jeito que o cliente pediu. Nem sempre é possível, como restou provado ao longo da noite.

Um pouquinho do fervilhante e quente interior

Entre as opções de entrada, muitas delas envolvem a linguiça argentina. Pedimos o chorizo Piazzola (linguiça argentina com calda de vinho e maçã verde, R$ 19,90), que faz homenagem ao compositor argentino Astor Piazzola. A apresentação não é das mais lindas do mundo, trazendo dois pedaços de linguiça semi mergulhados na calda de vinho, com alguns pedaços de maçã, e ao lado uma cesta com pães e grissinis. As linguiças eram um pouco resistentes ao corte, mas deliciosas. As maçãs fizeram um bom contraste. Já a calda de vinho foi o ponto alto do prato. Chris não conseguia parar de passar o pão no pratinho, mesmo depois que a linguiça já tinha terminado. Pediu até a receita para o garçom que, gentilmente, negou. Gostou tanto que exigiu que a calda permanecesse na mesa mesmo depois que o prato principal já tinha chegado. Por vezes já reclamamos de restaurantes cujos garçons não retiram da mesa os utensílios depois de utilizados, mas neste caso o pedido, ou ultimato, para que isto acontecesse, foi nosso.

Olhando assim ninguém diz, mas tava uma delícia

Ao abrir-se o colorido cardápio, tem-se ao centro, em destaque, o carro-chefe da casa: as carnes de novillo, assim em castelhano mesmo (aliás, todo o cardápio é trilíngue, escrito primeiramente em castelhano e depois traduzido para português e inglês). São seis os tipos de carne listados: bife de chorizo (corte alto de contrafilé), ojo de bife (entrecôte), vacio (fraldinha), tapa de cuadril (picanha), corazon de cuadril (alcatra) e asado de tira (costela). Dentre estas seis opções há duas subopções, hombre e mujer, que são diferentes em tamanho (400g e 300g respectivamente) e, obviamente, em preço. Estes variam entre R$ 69,90 e R$ 85,90. Há também explicações sobre os pontos de carne possíveis, facilitando a vida de quem é leigo no assunto. Uma vez escolhida a carne há várias opções de acompanhamentos que o cliente pode optar, entre alguns tipos de arroz, batatas, purês, legumes, farofa, etc. Estes custam em média 25 reais. A casa sugere que se escolha ao menos dois para servir bem duas pessoas.

Para a escolha da carne tivemos a ajuda do garçom e também de Jorge, que estava comandando as parrillas, e depois descobrimos ser o dono do restaurante. Chris queria uma carne sem gordura e malpassada. Lhe foi sugerido o corazon de cuadril (R$ 69,90, na versão mujer). Eu ouvi de Jorge a frase "por favor, peça o ojo de bife", e não resisti ao seu apelo (R$ 85,90, na versão hombre). Curiosamente, percebo agora que Chris escolheu a carne mais barata da casa, e eu a mais cara. Sou mesmo um perdulário. Para acompanhamento, pedimos o pure de zapallo con gorgonzola (purê de abóbora com gorgonzola, R$ 30,90) e a farofa (R$ 15,90).

Pouco antes das carnes chegarem à mesa, uma surpresa: seis antepastos para acompanhar a refeição. São eles: pimentão sem pele, salsa creole (uma espécie de vinagrete picante), molho barbecue defumado, patê de gorgonzola, chutney de morango e mirtilo e chutney de manga com gengibre. À exceção do pimentão, um pouco sem tempero, todos os outros estavam muito bons, e acompanharam muito bem a refeição. A idéia de não citar este "mimo" no cardápio é genial, porque ficamos agradavelmente surpreendidos. O purê de abóbora com gorgonzola estava delicioso. Bem cremoso, e com sabor equilibrado, o que é complicado em se tratando de um queijo tão forte. A farofa também estava boa, mais pra úmida do que pra crocante, mas com um bom sabor.

Nossa mesa e os parrilleros trabalhando ao fundo


O garçom trouxe a carne da Chris, e imediatamente ela ouviu de Jorge, que comandava a parrilla: "Se sua carne passou um pouquinho, por favor me diga, que eu refaço com o maior carinho". De fato a carne havia passado um pouco do ponto desejado, que era o malpassado. É sempre complicada essa opção de refazer o pedido, até porque meu prato já estava ali, e isto acarretaria em comermos em momentos separados. Por conta disso Chris optou por comer a carne daquele jeito mesmo. Mas faltou um pouco do sangue que ela tanto gosta. Jorge confessou, em conversa que tivemos depois da refeição, que é difícil imaginar que uma mulher queira a carne sangrando. Ele disse, talvez exagerando um pouco, que em cada mil mulheres apenas uma gosta de carne malpassada. Ainda assim, Chris achou o tempero muito bom (é usado apenas sal), e adorou os acompanhamentos, ficando especialmente impressionada com o purê.

"Má...má...má, quidê o sangue?"

Já a minha carne estava excepcional. O corte ojo de bife é bastante comum na Argentina, mas quase desconhecido no Brasil. É muito macio, e tem uma gordurinha deliciosa no meio da peça. Pedi ao ponto, e ele veio correto. Também gostei muito de todos os acompanhamentos, e foi uma delícia ficar brincando de comer um pedaço de carne com cada um dos antepastos, e também com o purê e a farofa. Também experimentei com o molho da entrada, que a Chris insistiu que ficasse na mesa, e deu muito certo. Tanto no meu caso quanto no da Chris, a altura do bife, sua maciez e tamanho são os grandes diferenciais em relação às carnes que comemos no dia a dia. Tanto que a primeira coisa que disse para minha mãe quando lhe contava sobre a experiência foi algo como "mãe, o que a gente come não é carne, aquilo sim é carne!". Nem preciso dizer mais nada: é a primeira nota dez em prato principal desde que começamos o blog. Simplesmente não encontrei do que falar mal.

Se olhar bem a foto capaz de dar pra sentir o gosto...

Para as sobremesas, há os clássicos alfajores argentinos, e mais uma meia dúzia de opções. Um dos garçons, empolgadíssimo, praticamente nos obrigou a pedir a panqueque de dulce de leche (R$ 24,90), que ele achava a melhor da casa. Aceitamos a sugestão. Embora o nome em castelhano seja panqueque, na verdade é uma massa de crepe recheada com doce de leite argentino, com uma bola de sorvete de creme ao lado. Um prato pouco elaborado, na verdade. A massa, quando comida em separado, carecia de um pouco mais de sabor. Mas a mistura era gostosa, embora não fosse de gemer.

Los borrachos e la panqueque

Harmonizamos nossa refeição com três cervejas da marca Campos do Jordão que, descobrimos depois, tem esse nome mas não é fabricada na cidade. Começamos com uma lager (R$ 23,90), depois tomamos uma weizenbock (R$ 24,90) e por fim uma ale feita com pinhão (R$ 24,90), embora o gosto deste não tenha ficado muito evidente na receita. O restaurante também conta com uma carta de cervejas importadas e uma de vinhos.

O serviço foi um caso à parte. É normal em restaurantes você ter alguns funcionários dedicados, prestativos e simpáticos e outros meio preguiçosos e desinteressados. Mas aqui todos que nos atenderam se mostraram atenciosos e, principalmente, conhecedores daquilo com que trabalham. Mesmo com o restaurante cheio, Viniciús, um dos garçons, dedicou um bom tempo a nos explicar o funcionamento do cardápio, e também em dar algumas sugestões, demonstrando saber do que estava falando. Espantados descobrimos depois que ele tinha apenas uma semana de casa. Também descobrimos posteriormente que o simpático rapaz que nos sugeriu a sobremesa tinha apenas dezessete anos. Pois trabalha melhor que muita gente grande por aí. Como também tivemos contato com o proprietário Jorge, pudemos notar que a dedicação e a preocupação com o cliente partem dele, e se irradiam por toda sua equipe. Não há bom time sem um bom capitão. Só no finalzinho da noite, quando precisávamos que as garrafas vazias que levaríamos (eu coleciono rótulos!) fossem embaladas é que o serviço demorou um pouquinho, e acabamos nos levantando com as garrafas na mão. Mas mesmo este vacilo foi compensado quando saíamos, já que o jovem garçom de dezessete anos nos viu saindo e prontamente providenciou uma embalagem.

Normalmente quando chega a hora de responder à pergunta sobre se eu voltaria ou não a um restaurante eu sempre penso se ficou alguma coisa no cardápio que eu gostaria de experimentar. Mas desta vez falei para a Chris que eu voltaria até mesmo para comer exatamente a mesma coisa que comi. Ela também disse que voltaria, mesmo que não tenham acertado o ponto de sua carne. Quem sabe numa próxima vez o sangue venha em quantidades mais generosas, do jeito que ela gosta. Como deu para perceber, não se trata de uma refeição barata, mas em nenhum momento a gente se sentiu enganado, por conta da qualidade da comida apresentada, do serviço e do ambiente.

Em nome da transparência, devo dizer que conversamos por cerca de uma hora com o proprietário Jorge, depois de já terminada nossa refeição, quando ele saboreava um charuto do lado de fora do restaurante. Acrescento que isto não mudou em nada nossa apreciação do lugar, em relação aos pontos positivos e negativos e às notas aí abaixo. No meio da conversa, Jorge disse, sem medo de soar hipócrita, que amava seus clientes. Ele explicou que tinha seis netos, e os clientes representavam o seu ganha pão. Nem precisava explicar tanto. O amor pode ser percebido na primeira garfada.

AVALIAÇÕES (Primeira nota da Chris, segunda nota do Fê; ao lado do quesito está o peso dele na média final):

Ambiente(2): 8 e 8
Serviço(2): 9 e 9,5
Entrada(2): 9 e 8,5
Prato principal(3): 8 e 10
Sobremesa(2): 6 e 6
Custo-benefício(1): 7 e 8,5
Média: 7,91 e 8,54
Voltaria?: Sim e sim

Serviço:
Av.  José  Manoel  Gonçalves,  160 - Vila Capivari -  Campos do Jordão - SP
Telefone: (12) 3663-6218
Site: http://www.libertango.com.br/
Facebook: https://www.facebook.com/libertango.restaurante?fref=ts